Opinião: Utópicos e fanáticos

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Tenho amigos genuinamente confessos da religião da “sociedade sem classes” e de um destino utópico e perfeito para a humanidade. Interessante é que entre eles há aderentes ao PCP, outros são anarquistas e muitos são de diversos credos, religiões e ideologias. No final querem um mundo sem reis, sem mandantes, de um poder fluido e aceite, sem necessidade de segurança militar, sem precisão de juízes e autoridades. Há os libertários em que não haverá donos nem senhores, os liberais que deixam tudo ao mercado e há os religiosos de uma sociedade sem desejos, sem sacrifícios e sem sofrimento. Utópicos e inflamados são eles todos. Há os de direita e os de esquerda e claro que os do meio. O que gosto neles é a força convicta, a alma iluminada que colocam na retórica. Muitos lêem poesia, declamariam mais se não fosse a vergonha que os simples lhes premeiam. Não tem sexo prevalecente, nem cor, nem idade.

Os partidários das agremiações são diferentes destes. Os engajados no partido são fanáticos, comungam na missa, participam em autos de fé, em queimas públicas, gritam esfalfados contra os outros. Aqui não há luz, não há alma, não há utopia. Estes sabem que o objectivo é o poder e que daquele deriva o emprego, e que dele arrancarão as melhores fatias. Os fanáticos estão em clubes, em partidos, em congregações, em igrejas e em sociedades.

Os fanáticos torturam.

Estão unidos com um fim comum, onde não carregam utopia alguma, onde o mando ideal é a ditadura. Por isso há clérigos que abafariam hereges, por isso há comunistas que matariam democratas, por isso há claques que atacam adversários, por isso há insultos nas redes sociais, por isso há necessidade de Instituições que nos protejam desta gente. Eles não são sempre assim, carregam aquele tempero no sangue, soltam-no na presença de quem os possa impedir de chegar ao poder. Como a doninha disparam cheiros e arreganham os dentes se o inimigo fica próximo. O fanático nunca é utópico porque”tem os pés na terra”. O fanático faz alianças estratégicas com qualquer um. O final é o poder, não importa como nem com quem. Mão Tsé Tung fez alianças estratégicas com a direita e a elite chinesa para derrotar os japoneses. Estaline assinou, tratados com a pior Alemanha.

A todos os fanáticos conhecemos crimes sórdidos a que não escaparam crianças e indefesos. Jugoslávia, URSS, Alemanha, Cambodja, China, Venezuela, Chile, Índia, Inglaterra, Argentina, guerras civis de Espanha e da América…. O rol não para e não tem cor, nem é de agora ou só de há duzentos anos. Mesmo o desporto vivido nesta tempestade é séptico, é assassino, é inaceitável. O apagamento da ignomínia e da maldade é típica dos fanáticos e impossível aos utópicos. O fanatismo revela gente pouco informada, inculta, carregada de chavões, de ideias construídas, de discursos de cartilha, de cassetes. Já os utópicos podem cansar pela diluição das dúvidas, pela desconstrução das certezas, pelo raciocínio aos soluços. Os melhores utópicos são os pensadores, os cultos. Os outros, os incultos mas boa gente, são mais da defesa do sobreiro contra a retirada da cortiça.

Vivem no asa delta, no parapente, vagueiam entre incertezas de ocasião, são gente de fé. Os fanáticos malignos são os cultos e informados, os construtores de “fakenews”, os que plantam janelas com a ínfima parte daquilo que sabem.

Entre os cronistas de jornal há os que nos trazem as narrativas dos partidos e das agremiações e há os que são capazes de expor uma ideia, de clarificar princípios, de entregar argumentos de modo aberto e de coração cheio. A batalha sobre uma crónica de Bonifácio foi um brilhante momento de distinguir utópicos, fanáticos e pensadores.

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