Opinião: Tempos de tempestade

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Sempre me disseram que antes de grandes mudanças aumenta fortemente o nível de hipocrisia, isto é, conseguimos sempre antever que algo vai acontecer quando olhamos para o comportamento das instituições e verificamos que a falta de coerência, de propósito, de interesse pelos outros e até total falsidade atinge níveis fora do comum.

A ser verdade, estamos perto de uma grande mudança. Nem vou falar da novela do Brexit, do drama dos migrantes, do insano comportamento do Governo de Itália que é, em minha opinião, um crime contra a humanidade, do inenarrável comportamento que leva à destruição da Amazónia, assim como levou à destruição de muitas das nossas florestas nacionais, do comportamento doentio de Trump, etc. Fixo a minha atenção em Portugal e fico estarrecido com o que observo.

Olho para a forma como o Governo geriu a greve dos motoristas e tenho a certeza de que o PM António Costa, o PS, o Governo, o BE e o PCP não ganharam nada com a demonstração de força que colocaram no terreno. Nem no curto-prazo, muito menos no médio e longo-prazo. Na verdade, só enfraqueceram a lei da greve e isso é como uma porta arrombada: esperem pela noite e vão ver as consequências dos estragos que fizeram. Os comentadores de TV, incapazes de ver mais do que um milímetro para além do nariz, gritam odes à demonstração de força e poder, como se o passado não existisse e nada tivéssemos aprendido. Esta “coisa” da Ryanair é só anedótica.

A “esquerda”, do PCP ao BE, paralisada de medo com o que pode acontecer nas eleições e penalizada pela falta de ação na greve dos motoristas, resolveu dar gás à greve dos trabalhadores da Ryanair e foi reunir com o sindicato. À saída, Catarina Martins dizia: “Estes trabalhadores têm direito a fazer greve. Estão a fazer greve num sítio que não é um serviço público. É um conflito numa empresa privada. Não há nenhuma razão para haver serviços mínimos porque, como sabem, a Ryanair não tem nenhum serviço público”. O que podemos concluir depois de a mesma Catarina Martins NÃO TER REUNIDO com o Sindicato Independente dos Motoristas de Matérias Perigosas? 1 ) Que ela precisa de gasolina, mas não precisa da Ryanair? 2 ) Que agora percebeu que com a greve dos motoristas abriram a caixa de pandora, colocando o direito à greve em causa? 3 ) Que as empresas de transporte de combustíveis não são privadas e a Ryanair é? 4 ) Que nada disto faz sentido nenhum e que, no fundo, a ideia é fazer de conta para sacar votos? 5 ) Há greves e greves e umas interessam e outras não… é conforme uma comissão do lápis azul determinar? 6 ) Que a cabeça da Catarina está meio baralhada, pois, aparentemente, o direito à greve varia conforma a empresa é privada ou pública? Ou tudo isto é só hipocrisia?

O PAN, dando azo ao desvario coletivo, propõe um SNS para animais. A seguir deve vir a escola pública para animais, o rendimento mínimo garantido e outras conquistas. Certo?

O Governo, em tempo de férias, resolve legislar, por despacho, sobre os direitos de crianças que não se identificam com o género com que nasceram, em vez de deixar o assunto, como deveria, até pela sua delicadeza, ao cuidado do bom-senso da comunidade educativa, das escolas e dos pais. Como se o drama dessas crianças não fosse suficientemente sério e preocupante, partidos de extrema-direita e extrema-esquerda digladiam-se usando essas crianças como bandeira. Pelo meio, na Amadora, duas gémeas de 10 anos, com a sua situação sinalizada há vários anos pela CPCJ, nunca foram à escola e viviam em condições desumanas. O que vai fazer agora o MP? Abrir um inquérito à atuação do próprio MP? Ignorar?

O motorista que conduziu o PR Marcelo Rebelo de Sousa na sua ação de “marketing”, quero dizer, de alerta sobre os problemas dos motoristas, mandou um email ao “Estado” (?? Isso é o quê, o email do próprio Marcelo?) a dizer que a greve ia ser uma nova revolução. A PGR e as secretas foram ativadas. Imaginei logo que tudo isso era uma peça humorística do RAP ou do Herman, ou dos dois, com o RAP a fazer de Marcelo e o Herman de camionista. Penso que nem eles teriam tanta imaginação: o RAP todo empertigado a fazer de Marcelo (“isto não se devia fazer, mas eu faço… bom!”) e o Herman (“prontes… eu… eu é que sou o presidente da camineta”). Mas não era nada disso, era verdade.

O Presidente da Câmara de Coimbra disse, em reunião de câmara, que não sabe quando é que o “problema” da zona ribeirinha (transformada em estaleiro devido à falência da empresa OPWAY) será resolvido. É mais uma obra inacabada a juntar ao Parque Verde, aos Esqueletos do Mondego que por ali continuam há anos, ao abandonado iParque, etc. Por este andar serão, em breve, “Cem Obras” por acabar.

Nesta confusão irresponsável que se vive em Portugal, na qual não há uma instituição credível, e anda tudo a cavalgar a espuma dos dias, ninguém sequer pensa na tempestade que aí está à porta. É uma tempestade tão forte que a Alemanha estuda mudar a constituição para fazer aquilo que impediu a Portugal, Grécia, Irlanda, etc., nos momentos de aflição da troika: aumentar o défice, ou seja, a dívida, para incentivar a economia. Para além de uma enorme hipocrisia, tudo isto deveria colocar os Portugueses em frente ao espelho, sem clubismos, a fazer as seguintes perguntas:
– Se a grande e poderosa Alemanha pensa em fazer isso, alterando até a sua constituição, vão ser as “lengas-lengas” do Centeno e da “geringonça” que nos vão proteger? Fizemos e estamos a fazer o que é necessário para enfrentar o que aí vem?

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