Opinião: O remorso de Fellini sobre a sua relação com o Corpo

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“Mas depressa me arrependi. Se eu tivesse sido o Super-Homem, teria sido capaz de intervir em inúmeras injustiças monstruosas” (Frederico Fellini).

Prisioneiro de uma má recordação por ele próprio confessada numa entrevista publicada no prestigiado diário italiano La Stampa — “eu sempre me senti bastante distante do meu corpo; era a única forma de escapar àquela marca da educação física fascista e à obsessão católica com as questões carnais” –, em seu leito de enfermo, diminuído fisicamente e em sofrimento psíquico por um acidente vascular cerebral de que viria a falecer poucos dias depois, Frederico Fellini ( 1920-1993 ) deu um impressionante testemunho que merece ser revisitado por fazer parte de um comovente texto de remorso pela sua desagradada relação com o Corpo.
Nesse testemunho não se esquiva, esse monstro sagrado de uma cultura cinematográfica sem pátria, a uma contrição sobre o distanciamento que sempre manteve como o seu Eu corporal: “Mas depressa me arrependi. Se eu houvesse sido o Super-Homem, teria sido capaz de intervir em inúmeras injustiças monstruosas”. E prossegue, num leito de sofrimento que se viria a tornar antecâmara da morte: “A minha relação com o meu corpo mudou. Eu costumava considerá-lo um servidor que me devia obedecer, funcionar, dar prazer. Na doença apercebemo-nos de que os senhores não somos nós, mas sim o nosso corpo que nos mantém prisioneiros”. Aliás, deve-se a Platão a progenitura destas grilhetas quando considera “o corpo túmulo em vida da alma”.
Estranhamente, assume o corpo uma inesperada dignidade quando matéria pútrida, sem sopro de vida ou nobreza d’alma. Logo, parece-me que a pompa das cerimónias fúnebres se assume como tardio remorso pelo desprezo que lhe é votado em vida. Em resumo, para o corpo rejeição em vida e homenagens fúnebres que perduram na memória civilizacional.
Em contrapartida, o corpo humanizado, que ri e que chora, que se movimenta e expressa corporalmente, personificado na figura dum Atlas, ajoujado ao peso de falsas convicções e preconceitos sem fim, tarda em libertar-se duma funesta sombra que a contemporaneidade se esforça em dissipar: “O nosso século apagou a linha divisória entre o corpo e o espírito e vê a vida humana como espiritual e corporal ao mesmo tempo e sempre apoiada no corpo” (Merleau-Ponty, 1908-1961 ).
Perante uma angústia que se lhe estampa no rosto, à pergunta do que sente mais a falta, a resposta surge sem qualquer hesitação: “De mim próprio. Daquilo que eu era”. Na verdade, a doença e a velhice com os seus achaques e decrepitudes fazem o espírito incapaz de manter uma ilusória tutela sobre o corpo que nunca chegou a ser efectiva. Unicamente alimentada pelo ledo e doce engano de que a juventude e a saúde são eternas porque somos jovens e saudáveis.
E, quando em infortúnio, o espírito deseja o corpo forte, rebelde e combativo, qual Espartaco, a doença, a velhice, a fealdade, depois de combates perdidos, vencem-no em batalha final. Sem honra, nem glória!

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