Opinião: Cavacas: vê se gostas!

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Há muito que queria contar esta história. A linda história das Cavacas. Mas tinha que esperar pelo tempo em que elas são rainhas, o tempo das romarias. Nascidas na simplicidade da massa singela de ovos, açúcar e farinha adornada e adoçada pelo branco da calda do açúcar, as Cavacas fazem uma longa viagem pelo mundo da doçaria alcançando a sumptuosidade tão presente no amarelo tentador das que são famosas em Resende. É uma viagem que vai do branco inocente e singelo ao amarelo opulento e cheio de esplendor.

Mas a história é rica, suculenta e bem doce e conta-se em vários capítulos. Começando pelas Cavacas tão presentes em qualquer romaria minhota, estas são em formato de concha e de massa estaladiça e seca onde ao peso dos ovos corresponde o peso da farinha. Porque nascem como doce de romaria compreende-se a sua textura mais rude, pois a necessidade de conservação ou aparecimento de bolores obrigava a que a massa fosse cozida até à desidratação. Já o formato de concha ou cava, o mesmo pode estar relacionado com a dupla função que aquele doce tinha. Num tempo em que a imaginação vingava sobre a escassez, as Cavacas eram a taça por onde os romeiros bebiam o vinho sendo, simultaneamente, acompanhamento perfeito pois, humidificada pelo líquido vínico, a massa da Cavaca permitia uma harmonização bem doce e saborosa.

Versátil, este doce revela o génio do ser humano que, na alimentação, nunca deixou de associar o gosto, a função e a forma. Neste capítulo convém já dizer que são muitas as versões das cavacas de romarias. Umas bem jeitosas e de sabor cheio foram-me oferecidas há alguns dias, as Galhofas do Marco de Canavezes. Quase adivinho a razão do nome, era uma folia, uma festa, uma galhofa completa comer estas Galhofas! Já os Rosquilhos, similares às Cavacas mas em formato de argola e vendidas em molhos de 5 atados por uma fina linha, há que contar que o pior que poderia acontecer a uma família era o pai comprar um molhinho e o número de filhos exceder o número das ditas argolinhas. Era o cabo dos trabalhos para a divisão sem desperdício…

Porque estamos nas Beiras, impossível não falar das Cavacas de Pinhel onde as da Eufrasinha são de boa memória. Em formato de bola e ocas por dentro, é um regalo, ainda hoje, vê-las a crepitar no forno dentro dos seus caçoilos de barro vermelho. Depois da cozedura que obriga a não abrir o forno na hora errada sob pena de a massa “se ir abaixo”, as ditas são passadas na calda. Feitas com azeite como qualquer Cavaca típica da Beira Interior, são estaladiças a desfazerem-se na boca, diz quem as conhece bem e tem nelas o doce predileto de infância a comer até não haver mais. Eu digo, espero pacientemente pela prova…

Mas de um doce singelo nos ingredientes e simples na arte culinária que foi buscar à calda de açúcar a graça e o contentamento que o adoça, passamos para uma evolução bem criativa da qual as Cavacas de Margaride são um bom exemplo. De formato circular, estas são como os bolos de gema fofos e ligeiramente húmidos. Por cima, a calda dá a graça da decoração e adoça um doce que acompanha bem o chá, o café ou bom vinho fino. Do seco e estadaliço passámos para uma massa quase parecida com o pão-de-ló, fofa a desfazer-se na boca.

Mas o ponto alto nesta história conta-se com as Cavacas de Resende, o topo da hierarquia social das Cavacas. As esplendorosamente amarelas, ternamente doces e francamente atraentes Cavacas de Resende representam a evolução máxima de um doce que nasce na pobreza dos ingredientes e alcança a opulência de um pão fofo de ovos, um pão-de-ló onde a farinha é um elemento residual e os ovos e o açúcar são companheiros fiéis. Cortado em fatias, estas são depois mergulhadas numa calda de açúcar de forma a permitir a conservação e depois pinceladas no topo com farinha de forma a manter aquele branco inocente que tão bem contrasta com o amarelo tentador. São as maravilhosas Cavacas de Resende, terra onde são rainhas e em que às outras “Cavacas” se chamam as Ocas. Ora, porque será?

Engraçado que nesta apaixonante história das Cavacas, do singelo ao opulento, da base até ao topo da hierarquia social, o elemento que se mantém sempre presente é o branco da calda que depois de solidificar lhe dá aquele aspeto de… Cavaca. Sem dúvida, é este o fio condutor entre todas elas.

A experiência de comer a rainha das Cavacas, as de Resende, é sublime. No entanto, na próxima romaria comprem cavacas e façam delas taça para beber um bom vinho (se vinhão ainda melhor). A experiência é das melhores da vida e, no final, vão perceber tudo sobre Cavacas, vão entender a história linda e apaixonante. Garanto-vos.

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