Opinião: Benditas sois vós, greves!

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Os advogados são mal-afamados – toda a gente sabe. Espertalhaços, aldrabões, sabidolas ou desalmados, são alguns dos títulos que lhes cabem, ainda que, como sempre, paguem alguns justos por outros tantos pecadores.

Por conta daquela reputação grassa entre os profissionais da arte forense um ror de gracejos que me fazem rir de mim própria e dos meus pares.

Nos últimos dias, os galhardetes trocados pelos advogados das Transportadoras de Mercadorias (ANTRAM) e dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP), lembraram-me uma anedota passada num qualquer lugarejo onde o único advogado era Senhor.

A historieta reza assim:
“Um advogado foi procurado por um cliente que, meses antes, deixara uma sua vaca a pastar num seu quintal. Sucedera, porém, que a dita bezerra invadira o terreno do vizinho onde se apascentara, e então, engordada a vitela, o dito vizinho reclamava a propriedade do animal já que o mesmo se criara com o seu pasto. O advogado, desembaraçado, logo o descansou «Sossegue, homem, que o seu vizinho não ficará com a vaca». Todavia, como à época os jurisconsultos não abundavam, o dito vizinho veio a recorrer aos serviços do mesmo advogado que, depois de ouvir a sua versão da história, de imediato lhe garantiu também «Sossegue, homem, que o seu vizinho não ficará com a vaca». O filho do advogado, aprendiz das mesmas lides, inquiriu-o «Mas afinal, pai, quem ficará com a vaca?», ao que o pai logo retorquiu «Ora essa, meu filho… no final quem ficará com a vaca somos nós».

Este relato é hoje improvável, pois em qualquer povoação abundam os escritórios da especialidade, mas, ainda assim, seja por via de uma fúria litigante ou porque aos profissionais do foro não sobram competências em negociação, são fartos os casos em que, finda a contenda, só os advogados ganham.

É o que acontecerá no final da greve que hoje toma conta dos telejornais.

Os trabalhadores acabarão por ceder à míngua do vil metal, já que a declaração de ‘emergência energética’ feita pelo governo justificou a mais lata definição de serviços mínimos de que há memória e a consequente requisição civil ao final do primeiro dia, logo depois de a própria ANTRAM ter declarado que havia apenas 23 grevistas.

E os empregadores também não sairão bem de um conflito que veio mostrar a pequenez dos salários que pagam e as artimanhas por si usadas para compor as retribuições por um trabalho duríssimo (em particular, a célebre cláusula 61.º do CCT que paga isenção de horário e trabalho suplementar de uma assentada só e impõe aos trabalhadores uma jornada diária indigna de qualquer estado democrático).

O BE, refém da sua ânsia de governação, parece o tolo no meio da ponte, tal é o desnorte provocado pela eficiência deste novo sindicalismo. O PCP está preso na própria armadilha e vê ameaçado o monopólio das centrais sindicais que se diziam donas e senhoras da ‘luta dos trabalhadores’ (o mesmo já sucedera com os enfermeiros).

A oposição reiterou a sua absoluta ineptidão e só disse disparates: se o CDS apoiou a requisição civil, o PSD limitou-se a sugerir o adiamento dos protestos para depois das eleições de Outubro.

E o PS, convicto de que este caos lhe garantirá a maioria absoluta, vai longe no patrocínio dos patrões e queda-se mudo quanto às acusações de fuga fiscal, esquecendo-se que, mais cedo ou mais tarde, sempre pagará esta deriva ideológica absolutamente contrária à sua matriz.

Finalmente, os portugueses são quem mais perderá. Não falo do tempo gasto nas filas das gasolineiras, mas sim dos direitos laborais que se irão. Parece que as greves, afinal, são incómodas…

No fim, só ganharão os advogados, um que aproveitou para se fazer conhecido e, eventualmente, ser eleito deputado, e outro que vai assim pagando ao PS os favores já recebidos.

E, entretanto, a GALP anunciou 109 milhões de euros de lucro só para este ano. É muito suor de uns para muito lucro de outros, enquanto o socialismo e a social-democracia agonizam. Benditas sois vós, greves, se lhes derem alento!

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