O luto e a luta após os incêndios são o ponto de partida para espetáculo em Tábua

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A companhia Circolando estreia no dia 19, em Tábua, distrito de Coimbra, um espetáculo que tem como ponto de partida o luto e a luta após os grandes incêndios de outubro de 2017.

“Sei agora que o meu luto vai ser caótico”, afirma um testemunho citado pela companhia, na sinopse do “Luto”, uma frase que ilustra também o espetáculo, de narrativa não linear e que procura explorar o luto como um processo que “anda para a frente e para trás”.

Nesse sentido, o espetáculo, pegando no momento pós-incêndio, procura trabalhar “os dois lados da palavra luto – o luto da perda e o luto de ir à luta -“, contou à agência Lusa a responsável pela dramaturgia da peça, Cláudia Figueiredo.

O espetáculo, que envolve dança, vídeo e música, foi criado em residência artística em Tábua e junta os elementos da Circolando com dois jovens de 17 anos alunos de artes performativas do concelho e uma mulher de 85 anos com uma forte ligação ao teatro amador daquele município.

O processo de criação arrancou em janeiro, com visitas esporádicas ao concelho.

A companhia está em residência criativa desde junho, num processo sempre com a presença dos três participantes locais.

A construção do espetáculo socorreu-se de testemunhos recolhidos por uma residente da região, fotografias do incêndio e pós-incêndio, de reportagens, bem como de conversas que foram tendo com pessoas do território, com os atores a funcionarem como “esponjas” que foram absorvendo todas essas histórias e testemunhos.

Desses testemunhos diretos, recolhidos mais de um ano após o incêndio, Cláudia Figueiredo notou que “as coisas já estavam a andar”, que as pessoas queriam “pôr a cabeça noutro lugar”.

“Fomos revolver umas cinzas que pareciam meio adormecidas, mas ainda acesas”, contou.

No espetáculo, sem lugar nem tempo concreto (uma das personagens é um dinossauro para vincar isso mesmo), o incêndio em si apenas surge “como um pesadelo”, conta a dramaturga, salientando que, apesar de parecer que tudo voltou à normalidade, o fogo continua a estar muito presente “na forma de pesadelos e de memórias nas pessoas” com quem foram falando.

Partindo desse luto, há uma abertura que leva a companhia a caminhar para “coisas mais filosóficas, literárias e poéticas sobre a catástrofe, sobre o trauma ou as fases do luto”.

“Os testemunhos encheram-nos e depois foi abrir. Isto nunca quis ser uma reconstituição, mas partir do que se passou”, esclarece Cláudia Figueiredo.

“É interessante, porque o espetáculo não se relaciona com o momento do incêndio, mas com o momento seguinte. Chama-se luto, mas podia ser luta, porque tem a ver como nós nos reorganizamos para enfrentar a realidade e para a conseguir transformar e conseguir ter alguma capacidade de querer que as coisas se transformem e não continuem a ser o mesmo”, vinca Isabel Craveiro, diretora do Teatrão, companhia de Coimbra que faz a coordenação artística da rede Artéria.

O espetáculo “Luto”, dirigido por André Braga, vai ser apresentado na Casa do Povo de Tábua de dia 19 a 21, contando com entrada livre.

Um dia antes da estreia, é promovido em Tábua o seminário “Territórios de baixa densidade / desafios culturais, físicos e demográficos”, que vai abordar questões como a descentralização, a valorização do património natural, cultural e físico dos locais ou a resiliência das comunidades.

A 27 e 28, o espetáculo “Luto” é também apresentado em Ourém e, em 2020, segue a itinerância no Fundão e Figueira da Foz.

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