Opinião| Última esperança: bicicletas

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Fruto de algumas boas companhias e de uma “evolução positiva de racionalidade”, a minha vida material tem sofrido cortes assinaláveis. Desfiz-me de um negócio, vendi um apartamento, despachei quase toda a colecção musical, doei metade da roupa, despedi-me de livros lidos e relidos, e transformei num monte de lixo dezenas de objectos de aparente utilidade.

O resultado foi, muito resumidamente, uma enorme leveza de espírito. Têm sido tempos de busca pelo que é importante.

Consulto a bola de cristal e observo-me num dia distante a viver experiências transcendentais junto de uma comunidade indígena auto-sustentável na Bacia do Congo, ostentando longas barbas brancas e vestindo uma saia de folhas de cedro.

Enquanto não chega o dia, vivo hoje a fase em que equaciono periodicamente a presença do automóvel na minha vida. Vejo-o como um empecilho poluente a ocupar demasiado espaço. Encaro-o como um consumidor abusivo de recursos naturais e financeiros. Acuso-o de excesso de protagonismo. Apelido-o de propiciador de dependências.

No entanto, olho para a minha cidade e constato que a “mobilidade urbana sustentável” é apenas um conjunto de palavras bonitas que encaixam de forma aleatória num qualquer programa eleitoral, onde o automóvel é rei e senhor. A alternativa?

Fazer um par de quilómetros num autocarro desconfortável, quase vazio, na presença de um motorista mal-encarado. O preço? 1,45€. De trotineta? Igual ou pior. Em viatura própria? Menos de 50 cêntimos. O diagnóstico? A mobilidade sustentável é uma farsa. A conclusão? Não vai ser fácil chegar ao Congo.

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