Opinião: Rali de Portugal e Universidade de Coimbra . . .

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Este tema já gastou muito espaço em jornais e em redes sociais, mas penso que não será de mais, com a liberdade a que cada um pertence, expressar o seu pensamento para uma reflexão. É com essa liberdade que expresso o meu.
Começo por denunciar o meu conflito de interesses, uma vez que sou grande apreciadora de ralis e corridas de automóveis. Por isso, e de forma alguma, não constitui este facto razão suficiente para que deixe de manifestar a minha total discordância sobre o local escolhido para o arranque do Rali de Portugal.
Estamos a falar da Porta Férrea da Universidade de Coimbra, classificada em 2013 pela UNESCO como “Património Universal”. “Património Universal”, repito. Um “Património” que a partir daí (e por isso mesmo) deixou de ser nosso, mas a que nos foi atribuída a responsabilidade de preservar para oferecer a todos, não o deixando ser desviado daquilo para que foi construído e a que se destina. E esse Património é uma marca com uma história iniciada por D. Dinis em Lisboa e transferida definitivamente em 1537 para Coimbra por ordem do rei D. João III. Bem sei que a Universidade evoluiu … e que o significado de Universidade tem de evoluir, não apenas adaptando-se à evolução dos tempos, mas, e sobretudo, como Universidade que é e cada vez mais tem de ser, conduzindo, Ela própria, à evolução dos tempos. Mas custa-me a crer que alguma vez D. João III (ou D. Dinis) sonhasse (com as devidas distâncias, naturalmente) que a Universidade servisse para um qualquer espectáculo semelhante a uma partida de Ralis … e não acredito que o Marquês de Pombal, com todo o seu espírito revolucionário (a grande revolução cultural trazida pela “Reforma Pombalina”) se sentisse confortável ao posar na Biblioteca Joanina com condutores (de indiscutível mérito e valor como condutores de rali, não está isso em causa), numa fotografia divulgada por toda a Imprensa, fotografia que considero de muito mau gosto ou até irresponsabilidade (quando ainda há poucos dias se discutia na imprensa diária o risco em que aquela Biblioteca se encontra e que vai obrigar a um racionamento das visitas).
Que fique bem claro que apoio incondicionalmente a ideia de o Rali de Portugal partir de Coimbra, mas esta cidade tem inúmeros lugares mais apropriados e ajustados à história de um Rali. Não podemos estar em tempos de “vale tudo” … desde que daí resulte espectáculo!…
Finalmente, mas não menos importante, é uma referência à facilidade com que se praticam certos actos sem cuidar dos direitos dos outros:
Durante quase dois dias, o trânsito automóvel (e, depois, mesmo o acesso pedonal) ao Polo I foi encerrado. Em sequência, a Reitoria da Universidade concedeu tolerância de ponto em todas as Faculdades e Serviços Universitários.
E quem pensou que naquela mesma área há outras Instituições Públicas (não dependentes da Universidade e, por isso, não abrangidos por aquele “despacho reitoral”), instituições comerciais, residentes, etc.? Ninguém quis saber (nem previu uma solução plausível) como todos os restantes trabalhadores resolveriam a sua situação? Trabalhadores que ficaram impossibilitados de transitar com os seus carros e os tiveram de deixar, mais perto ou mais longe na cidade, para fazer depois todo o percurso a pé até ao seu local de trabalho!
Anatole de France dizia que preferia o erro do entusiasmo à indiferença do bom senso, mas, por sua vez, Eurípedes dizia que o homem poderoso que junta a eloquência à audácia torna-se um cidadão perigoso quando lhe falta o bom senso.

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