Opinião: Do Paradigma McDonald ao “Doençapp” (I)

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Em 2003 fiz uma palestra em Portimão sobre a cultura hospitalar vigente, que ainda persiste e falava da consolidação do método da McDonald: a saúde, tal com a loja de hambúrguer há oitenta anos, classifica, tem protocolos e normas e codifica todos os actos e diagnósticos que realiza sobre os clientes e regista em computador para uma fiscalização afinada e depois o pagamento respectivo.

Também é assim em saúde onde códigos de barras, GTINS, QRS ajudam a conferenciar materiais, despesas e necessidades para os actos a realizar. A diferença da McDonald para o sistema de saúde internacional é a formação. A McDonald é muito mais criteriosa no ensino dos que coloca ao seu serviço.

Este é o paradigma em decomposição no mundo que se avizinha. Uma empresa de saúde estética trabalha com os computadores e utiliza apps que permitem um contacto quase online com os seus clientes. Consultas a 4000 kms são possíveis com médicos a banhos de Sol. O controlo biométrico é substituído pelo facto de a campainha tocar no telemóvel e o whatsapp se abrir como previamente combinado. O lugar do angariador de clientes não carece institucionalização. O lugar da consulta não carece de paredes. O sistema de documentação está na nuvem e portanto não carece transporte físico. Tudo isto já existe e é praticado por empresas privadas e por alguns visionários no Estado sempre mal tratados por abencerragens que vivem de favores políticos e de desonestas escolhas, nunca avaliadas nos resultados.

A construção de Centros de saúde e hospitais do velho paradigma é pisar com insistência num caminho perdulário.

Especializada uma equipa em duodeno pancreatectomias, construído um lugar adequado à sua realização, os doentes utilizadores de internet e sabedores de inglês vão vasculhar o Google Ads (antes conhecido como Google AdWords, é o principal serviço de publicidade da Google e principal fonte de receita desta empresa representando 96% dos quase 37,9 Bilhões de dólares que a empresa facturou em 2011. (Wikipédia) e utilizam o seu seguro para chegar àqueles que o podem salvar do seu cancro pelo melhor preço e com os melhores resultados. Usam o whatsapp falam com o responsável da empresa (por exemplo – http://www.londonbridgehospital.com/LBH/treatments)

Esta nova verdade dói aos cultores de um empedernido sistema em decomposição. O serviço nacional de saúde tem de mudar para ser melhor e mais fácil de responder aos novos anseios. A cultura da população moderna é a mesma do primado da mercadoria. Como diz Emmanuel Coccia, hoje somos a própria mercadoria que compramos, vendemos, distribuímos. O instagram mostra como expomos o produto “eu” para receber negócios da exposição e da venda narcísica. Como diz Biung – Chul Han o eu narcísico expulsa o outro e damos depois com as novas doenças do eu sozinho que exposto como mercadoria é uma coisa amorfa entre a transparência e a pornografia (a transparência total). Deste modo temos um paradigma diferente onde o cliente é mercadoria e busca uma solução única e para ele, porque ele tem de si uma visão narcísica e aquisitiva. Esta experiência de padrões sociais com classe média é visível em sistemas de saúde onde os hospitais competem como lojas de serviços. Os perigos são inúmeros como “forçar indicações”, prestar serviços em excesso, alongar classificações, bordejando a fronteira da fraude e entrando na ganância fria. Mas este cliente que não quer a cicatriz, que deseja copa G, que quer um chip na orelha, que quer lentes com desenhos no lugar do cristalino, já não quer ser calvo, coloca desafios inovadores, por certo disparatados no paradigma McDonald, mas agora fáceis de adquirir em saúde loja. As app aproximam o cliente do especialista.

Estamos no domínio do indivíduo com novos welfare rights, do aparecimento do direito a ser diferente como uma imposição de direito social ou direito de segunda (talvez terceira) geração. O eu que muda de sexo, que muda de cor, que adopta cabelo, que acrescenta motores de performance sensorial para o prazer. Interessante como uma esquerda “vestida de esquerda” (vestimos a força dos argumentos que defendemos como explicava Jean Baudrillard) levou à explosão deste egocentrismo narcísico.

2 Comments

  1. Besugo O Peixão says:

    Ora aí está. Por isso é que preferimos os analíticos. Precisamente pelo risco de se ficar tresloucado, esquizofrénico, sempre ser menor. Os analíticos disputam, argumentam, ao passo que os outros, não. Mas para isso é preciso atilamento a priori, e dito isto, poderá haver aqui alguma circularidade. Petitio principii.

  2. O comentário está mesmo no sítio certo. O que serve para o estudo científico do areal que cresce e decresce, serve para o artigo de opinião Do Paradigma McDonald ao “Doençapp” (I).
    A circularidade tanto ocorre na Ciência, como na Política, como noutros contextos. Petitio principii.
    Tanto conhecemos o Sr. Jean Baudrillard, como os Srs. Roland Barthes e Pierre Bourdieu dos tempos de estudante, do tipo de estudante em estreita conexão com a academia conimbricense. Mas não um tipo de estreita conexão como a que pode ocorrer entre cérebros e cus, cus e rosas, cérebros e rosas. Ou como a que parece por vezes haver entre flores particulares (rosas, lírios, et al.) e Universidade… E entre cus e Universidade. E entre Universidade e infecções. E entre flores particulares e infecções. E entre cus e infecções. E entre certo tipo de cérebros e infecções…

    Contudo há flores que são puras e venenosas, como é o caso dos lírios do vale (lily of the valley). É uma conjunção glorificada da Natureza, mas esse tipo de veneno a mim não importa.

    A circularidade pode ser muito venenosa. Letal, até. Deixa-a crescer. Afinal há variáveis determinantes para isso. Cresce e depois decresce, como outras coisas. Naturalmente, com a maré, ou então por variáveis mecânicas, com drenagem, dragagem – as outras coisas líquidas, entenda-se. E olha, os peixes agora que se amanhem! Porque a peixa vai dar de frosques para alto-mar. 🙂

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