Opinião: Despovoada Serra

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Quem pegando num carro vagaroso se ponha a percorrer a faldas da Serra da Estrela encontra paisagens deslumbrantes se não tiverem ardido, e outras sem ninguém que as habite por se terem esvaído todas as hipóteses de, aqui, terem uma vida capaz ou pelo menos sofrível.

Diz-me um livro de viagens na Serra que “De S. Romão há vários passeios: Recuando e seguindo a estrada de Coimbra, encontramos um carreirinho que desce a Vila Cova a 3 km de distância. Este lugarejo dista 6,5 km de Seia, tem 718 habitantes e 453 metros de altitude”1. E agora encontro menos pessoas e se andar por Gouveia num fim de verão posso ao almoço não encontrar restaurante no seu centro, e só por os patrões e empregados terem ido de férias para descansarem de um Agosto cheio de emigrantes. Se formos pelo outro lado da Serra também encontramos lojas e cafés fechados.

Entretanto, enquanto escrevia este texto, um dos jornais que restam em Portugal mandou-me uma mensagem, onde tentando atrair-me para a sua leitura me informava: Dos 35 meios aéreos aprovados para combate aos fogos só sete podem voar. E logo sabemos que com tanta distraída governação não vamos longe. Nem sequer consegue captar votantes e os que votam, mostrando que não alinham nas suas ideias ou não as perceberam, votam demasiadas vezes branco ou anulam votos das formas mais diversas e até tontas quando não são obscenas. Nem sequer percebem que não é assim que educam os “governantes”.

Contudo, se rebobinarmos o filme da recente campanha eleitoral, chegamos à conclusão que a vitória dos vencedores resultou mais de habilidades com que amedrontaram os seus mais diretos competidores. Não ajudaram em quase nada quanto ao esclarecimento dos eleitores os meios de comunicação social, que só alinham com quem lhes paga, e se esquecem de fazer um esforço de acompanhar a campanha para dar dela e da mensagem dos candidatos um verdadeiro retrato para que os eleitores fiquem conscientes do que está em jogo em cada eleição. Não ajudam em nada alguns comentadores que só aplaudem os vencedores e nada dizem dos enganos em que caímos e vamos continuar a cair se a verdade continuar ocultada.

Enquanto isto acontece algumas autarquias tentam animar o que resta do comércio local já que os centros das cidades estão cheios de casas e lojas fechadas. Outras, geridas por autarcas que preparam a sua saída feliz, ficam-se pelos vazios das promessas que não eram para cumprir. Outros, neste caso, aproveitando a deixa, ensaiam os passos de uma dança em que alguns entram pensando que isso é viver.

Todos nos encontramos por isso numa encruzilhada em que, com maior ou menor clareza, só vemos horizontes enevoados que é preciso aclarar.

1 Wachsmann, Fred – Como eu vi a Serra da Estrela, Edições da Tipografia Alcobacense, Lisboa, 1949, p. 13.

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