Opinião – As pessoas corruptas e a corrupção em pessoa

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Se acompanharam o caso dos resultados combinados no futebol espanhol, também devem ter lido sobre a principal causa apontada: os baixos salários e/ou os salários em atraso praticados pelos clubes das divisões secundárias.
A I e II Liga inglesas e a I Liga espanhola estão, de certa forma, protegidas devido à centralização dos direitos televisivos que não só permite aumentar a competitividade e as receitas mas sobretudo porque dá a todos os clubes e jogadores meios para terem uma vida digna e não viverem em permanente estado de necessidade.
A centralização dos direitos televisivos, para além de não retirar um cêntimo de receitas aos grandes clubes, torna a competição mais atractiva, mais justa, mais equilibrada e menos permissiva à viciação de resultados.
Ora, se isto é uma evidência, por que razão Benfica, Sporting e Porto, com o consentimento das SAD dos restantes clubes, não querem a centralização dos direitos televisivos, sendo um caso único na União Europeia?
A resposta é óbvia: porque, com a independência económica dos pequenos clubes e com os salários em dia, ficava muito mais difícil comprar jogos e subornar clubes e jogadores. Os Boaventuras, Paulo Gonçalves, Geraldes, os Teles, assim como todos os Apitos Dourados, Verdes e Encarnados, deixavam de ter utilidade e de fazer sentido.
Perguntam os mais ingénuos: mas se Benfica, Sporting e Porto não perdem receitas com a centralização dos direitos televisivos, por que razão se opõem à centralização, permitindo, dessa forma, que a liga portuguesa se continue a disputar fora das quatro linhas, com jogos de influências, subornos, compra de resultados e de jogadores?
A resposta é mais do que óbvia: porque a não centralização dos direitos televisivos garante, logo à partida, os lugares europeus a estes três clubes e ao Braga, sem necessidade de correrem qualquer risco com uma liga mais competitiva e equilibrada.
A corrupção existe em todos os países e nenhuma instituição está a salvo mas o que distingue os países civilizados dos países do terceiro-mundo é que, nos países civilizados, há pessoas e organizações mafiosas que são perseguidas e combatidas pelas instituições do Estado, enquanto, nos países do terceiro mundo, as instituições do Estado são a corrupção em pessoa.
Viram qual foi a primeira decisão tomada pelo presidente do Huesca, apesar de clamar inocência? Apresentou a demissão de todos os cargos do clube. Em Portugal, por mais processos que haja, os presidentes agarram-se aos cargos como lapas porque sabem que essa é a sua única tábua de salvação. E os adeptos, como é característico dos países do terceiro-mundo, desde que o seu clube ganhe, é para o lado que dormem melhor.

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