Entrevista com Joaquim Chissano, antigo Presidente da República de Moçambique

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DB-Carlos Jorge Monteiro

O que representa para si ser convidado pela Universidade de Coimbra para o lançamento formal da Academia Sino-Lusófona?
Representa, em primeiro lugar, mais uma honra para o povo moçambicano, através da minha pessoa. Por outro lado, uma confiança e uma esperança para Moçambique, de forma a que minha pessoa possa contribuir para a realização dos objetivos definidos pela academia. Eu tenho longos anos de contacto com a China e, antes mesmo, com o povo chinês. Antes do cargo de Estado que ocupei, tive um longo contacto com chineses que moravam naquela altura em Moçambique. Mas passamos a conhecê-los melhor quando eles nos apoiaram na luta pela Libertação Nacional e após a Proclamação da Independência. Sabemos como eles são solidários e como eles negoceiam para estabelecer relações de cooperação na base de ganhos mútuos.

A sua presença em Coimbra acontece poucos dias depois de ter sido nomeado para a presidência do Conselho Consultivo do Instituto China-África. O que podem os dois territórios ganhar com esta parceria?
Em comum, as duas entidades pretendem descobrir mais coisas que nos podem ligar e que podemos utilizar para valorizar e melhorar as relações existentes entre os vários países. A China é, neste momento, um país bastante tecnologicamente desenvolvido, tem uma história e cultura milenar e, com toda a certeza, vamos descobrir que o contacto entre os dois continentes já tem muitas centenas de anos. Uma situação que começa, agora, a ser conhecida através das pesquisas e dos estudos que entidades como estas têm vindo a realizar. Estes estudos contribuem para as boas relações internacionais e para o desenvolvimento da Humanidade.

Moçambique sofreu enormes prejuízos com a passagem do Ciclone Idai. Está satisfeito com a resposta da comunidade internacional?
Estou muito grato com o apoio prestado ao nosso país. Apesar de satisfeito, isso não significa que os apoios tenham resolvido todos os nossos problemas. Um enorme contributo feito de forma espontânea, mas que agora não pode parar. As necessidades do nosso país são enormes.

Em abril passado, fez notar isso mesmo na Conferência de Doadores…
Nessa conferência, eu referi que o apoio dado está muito aquém das necessidades. O objetivo é que os doadores encontrem meios para aliviar o sofrimento do povo africano. Em Moçambique, nós também não paramos na obtenção de apoios. E vamos continuar.

O apoio português foi fundamental nos primeiros dias pós-ciclone?
O apoio português foi conduzido ao mais alto nível, através da liderança do Presidente da República. Mas notamos que, em Portugal, houve muitas iniciativas feitas por pessoas humildes. Anteontem (domingo), estive numa igreja em Coimbra onde vi gente muito humilde que contribuiu para o nosso país. Estavam muito orgulhosos desse gesto. Eu costumo dizer à nossa população que nem sempre a ajuda recebida por Moçambique vem de países ricos, também vem de países onde a população sente algumas dificuldades. A solidariedade é mesmo assim.

Falando agora de política interna moçambicana: o acordo com a Renamo tem sido cumprido?
Têm existido avanços. Esperamos que, em agosto deste ano, a questão esteja completamente resolvida, como foi acordado. Espero que isso aconteça, pois em Moçambique já ninguém quer guerra. Hão-de aparecer terroristas, como está a acontecer atualmente na zona norte do país, mas que nada têm a ver com questões políticas. Neste momento, nenhum dos partidos está interessado em voltar ao período de guerra. Vamos, com toda a certeza, caminhar para a verdadeira reconciliação nacional.

Entrevista completa na edição impressa de hoje

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