Opinião – Quando mais é menos

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Coimbra é uma cidade ímpar. Em cada recanto há uma história recôndita, há uma lenda que sussurra, um apontamento que nos conquista. Da Baixa à Alta. A calçada conduz-nos a monumentos onde foi feita a história de uma nação, compendiando ilustrações reais enobrecidas pela cultura que, sem mais, cai do regaço desta cidade encantada, como aquelas rosas caíram do imaginário coletivo, contadas em livros que se rendem à beleza, como as canções e o fado que entoam a sonoridade que sobre nós paira. Saber usar esta cultura inata é um privilégio, requer mundividência. É uma arte.
Coimbra tem, para além de tanto mais, museus, monumentos, e muitos outros espaços de fruição cultural ativa, como são exemplo os teatros. No que a isto diz respeito, lembro o Teatro da Cerca de São Bernardo, a Oficina Municipal do Teatro, o Teatro Académico Gil Vicente, a Loucomotiva, entre vários outros em freguesias e concelhos contíguos, para além da polivalência do Convento de São Francisco. À febre de outrora, que trouxe novas e desenfreadas construções, há sobretudo que reabilitar. E há, sobretudo, que saber parar. Por muito contestável que isto possa parecer, há que saber quando parar.
Os agentes culturais não precisam da insensatez de outrora que fomentou a selvajaria no meio, que em cada canto, e à falta de outras ideias, via sempre como destino de edifícios decrépitos ou em desuso a construção de uma infraestrutura que à força do cimento tinha de albergar intuitos pseudoculturais. É claro que muitos deles foram bem pensados, bem concretizados, e ainda hoje estão aí a demonstrá-lo. E outros tantos vieram colmatar a falta que alguns equipamentos faziam no seu território e às suas gentes. E há ainda os casos de reabilitação de espaços de notável interesse público ajustados a conteúdos que só ali fariam sentido, como as casas-museu, por exemplo.
Todavia, muitos outros, os designados elefantes brancos, foram responsáveis por mais decadência e pelo fim de bons projetos que não sobreviveram à ufana proliferação de espaços culturais. Ou seja, de espaços a mais. Não falamos de projetos a mais mas sim de infraestruturas a mais, que conduzem a encargos, a despesa e a dispersão. Nestes casos, assistiu-se a uma certa canibalização da cultura em que, inevitavelmente, só os últimos sobreviveram. É determinante a construção de uma boa carta cultural, para que se saiba quantos espaços existem, quem servem, que conteúdos acolhem, qual a sua capacidade de lotação e, assim, podermos todos vislumbrar a adequação (ou inadequação) de mais espaços.
Novos ventos cosmopolitas vêm recomendando a coabitação no mesmo espaço de vários conteúdos, para poder potenciar a criação de uma promoção em rede, mais sustentável e captadora de múltiplos públicos. Eis um exemplo: fazer da estação ferroviária de “Coimbra-A” (preparada para deixar de receber comboios a partir de 2020 ), um espaço concorrencial a outros de elevada importância cultural, que se desunham por captar público, poderia eventualmente ser insensato. Ao invés, dotar o edifício de um espaço de atrativa restauração (à semelhança do que sucede com emblemáticos mercados europeus de tasquinhas, tapas e petiscos), capacidade hoteleira (como recentemente fez a estação de Santa Apolónia) e, na ala mais histórica do edifício, como contrapartida, desafiar os seus promotores a apostarem na cultura popular coimbrã, onde se impõem a canção e o fado de Coimbra, teria a virtude de agregar turismo e cultura, trazendo mais público, novo público, mais diversidade.

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