Opinião – Praga 2019

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Uma história de cinema na minha vida. Resumidamente o que se passou foi um encontro de duas curadoras de uma exposição sobre a similitude dos discursos artísticos em autores portugueses e checos na conceptualização do discurso crítico e da abordagem plástica de momentos revolucionários. Porquê Portugal e República Checa? Porque em 1989 alguns jovens portugueses que lideravam associações de jovens profissionais resolveram ir a Praga solidarizar-se com a revolução que afastava o comunismo da liderança do país, na sequência das reformas de Gorbachev. Este facto surge inevitável da pesquisa de Adelaide Ginga e de Sandra Bobarovska com a colaboração de Pavel Szobi (doutorado em História) que nos respectivos museus construíam o projecto. Então quem são estes tipos que aproximaram Mário Soares de Vaclav Havel há 30 anos? Quem colocou um Renault 21 de matrícula portuguesa na República Checa para Havel tomar posse sem ir num carro do estado comunista? Eles foram Álvaro Beleza, José Pedro Aguiar Branco, Paulo Barros Vale, Helena André, José Viegas, João Correia, Diogo Cabrita, António Tavares, José Campelo. Esta história fez furor 30 anos depois e lá foram os que puderam ir (às suas custas, não se aflijam os detractores fieis) participar nos eventos comemorativos e na abertura da exposição. Em 1989 foi tudo de modo apaixonado e sem rede, sem ajuda de tecnologia, sem presença de telemóveis ou de televisões portuguesas. Fomos lá, ao epicentro da revolução de veludo e vimos os últimos movimentos policiais, distribuímos 50.000 rosas de Portugal por milhares de checos a gritavam viva Portugal. Nós em 8 e 9 de Dezembro de 1989 fomos os primeiros a afirmar a força duma europa livre em favor de uma libertação de um país do jugo comunista. Por lá as histórias comparativas de resistência têm similitude com as barbaridades dos fascistas por aqui, só que por lá os democratas presos e torturados foram por agentes do partido comunista que Álvaro Cunhal defendia sem hesitações. Os vídeos da invasão de 1968 mostram como para o Partido Comunista aquele apagar da liberdade é “legítimo e justo”. Relatividade interpretativa será o nome deste fenómeno. Em Abril de 2019 sentámo-nos com os jovens de 1989, a Mónika Pajerova e o Martin Mejstrik num evento com moderação de um pivô importante da televisão Checa. Vimos os vídeos de 1989 com os protagonistas nas suas novas roupas e ouvimos a evolução das suas convicções e preocupações. Vimos uma exposição que se pretende rever em Abril de 2020 no Museu Nacional de Arte Contemporânea onde brilham relações estéticas como a de Augusto Barros com Vaclav Havel na poesia visual. É uma grande exposição onde revemos Abril de 1974 e Praga 1989 numa cronologia importante onde não se esquecem os tanques de 1968 sempre acompanhadas com essa magia de discursos similares de artistas distantes no espaço, mas próximos na leitura, quer estética quer discursiva dos factos. Há questões que devemos em abono da verdade reafirmar sobre as diferenças das transições nos dois países. Em 1989 quando o regime comunista cai na República Checa não havia pessoas sem luz, sem água ou analfabetas. Em 1974 Portugal tinha uma dose de atraso muito superior, com índices de mortalidade infantil, analfabetismo, cultura artística em níveis ridículos, ausência de saneamento, electricidade e água que nos davam o menor lugar na Europa. Tudo isso mudou com a democracia. Na república checa estas realidades estavam resolvidas mesmo em 1974 e não fora o sistema ditatorial, as prisões por delito de opinião, as regalias para os agentes do partido e a destruição de qualquer iniciativa privada ou de liberdade eles viviam muito melhor do que aqui. Limitados na aquisição de bens matérias, limitados no consumismo, limitados nas escolhas possíveis, mas com casa aquecida, transportes públicos, escola para todos, saúde para todos.
Em Praga em 1989 não havia turismo, mas hoje é uma cidade afogada por milhões de visitantes. É difícil atravessar as pontes históricas, é difícil entrar nalguns lugares históricos. Hoje em Praga estudam Medicina dezenas de estudantes portugueses. Visitamos a Universidade de Milan Kundera, de Kafka, de Einstein, e destes jovens portugueses que representam o sacrifício e o esforço de muitas famílias que querem dar aos filhos futuro melhor que os seus.

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