Opinião – O sonho da medicina de família

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O Dia Mundial do Médico de Família é celebrado a 19 de maio, com o objetivo de promover a importância dos cuidados de saúde da pessoa e do seu agregado familiar e valorizar o papel do médico de família na saúde e bem-estar de cada um e da sua família. Não existe esta figura há muito tempo e, ainda assim, já é tão diferente do que era há escassos anos. No final dos anos 70 do século passado surgiu a necessidade desta especialidade médica, a par da criação do Serviço Nacional de Saúde, do conceito de saúde para todos, bem como  dos centros de saúde onde se juntavam cuidados preventivos e curativos. Inicialmente, foi criada como carreira de clínica geral mas, sublinhe-se, já com o estandarte de quem pugna por uma saúde universal, próxima e completa. Só mais tarde se criou a especialidade de Medicina Geral e Familiar, inicialmente, com formação em exercício para os que já estavam no ativo e, logo depois, com um programa estruturado e cada vez mais exigente para quem terminava o curso de Medicina e queria levantar este estandarte também.

Hoje, nos centros de saúde, somos 5652 cuidando de 9 milhões e meio de portugueses (e tentando ajudar os 750 mil que não têm médico de família também). Todos diferentes porque somos humanos, porque trabalhamos em unidades diferentes na forma de funcionar e de estar, porque trabalhamos num país pequeno mas com tantas assimetrias. Mas todos iguais, também porque nos une a capacidade de gerir a complexidade, na simplicidade única da comunicação humana, a incessante busca por fazer o bem através do poder da confiança e empatia, da aposta na relação e no conhecimento daqueles que nos ocupam os dias com um projeto de vida comum que é cuidar do outro como se fosse da nossa família também.

E, por este bem maior, também nos vamos unindo em lutas: no início, eram mais pelo direito ao espaço para a formação especializada e reconhecimento do que fazemos como algo único e valioso tanto para os utentes como dentro da própria medicina, que sempre foi tendencialmente ‘hospitalocêntrica’. Agora, lutamos mais pelo direito a exercer medicina com qualidade, sem ser atropelados por utentes desesperados por não conseguir consulta no meio de tão grandes listas de utentes. Agora, lutamos, angustiados, perante programas informáticos que insistem em não funcionar, o que nos impede de cuidar de quem precisa. Lutamos, indignados, perante burocracias e tarefas desnecessárias que nos retiram o tempo necessário para ajudar quem realmente necessita de cuidados médicos…

Os tempos mudaram: Por um lado, as pessoas são mais exigentes no seu papel ativo nas decisões, o mundo é mais acelerado e os níveis de stress aumentam para todos. Por outro lado, também a ciência avança vertiginosamente. Os médicos de família adaptaram-se, pois, às novas realidades, com melhor formação em comunicação, exercendo medicina centrada na pessoa, medicina baseada na evidência e em interpretação e crítica da própria evidência científica. Aprenderam, ainda, a estar atualizados em relação a tudo isto, à velocidade da luz. As próprias organizações onde trabalhamos foram-se modificando. A mais recente reforma, levou ao surgimento das USF e de formas mais autónomas e participativas de gestão, quer com objetivos de melhoria da qualidade quer com objetivos centrados no cidadão. Tal, foi- nos ajudando a manter a motivação das gerações que vão querendo apanhar este comboio de alta velocidade que é hoje a Medicina Geral e Familiar. Assim, vamos caminhando (e correndo), lembrando-nos do tempo em que se almoçava e logo se retomava o trabalho com outro fôlego. Tempo, esse, que agora tem de ser recuperado com formas alternativas, para nunca perder o norte, que é este sentido de missão que sempre nos norteou. Sentido de missão que teima em ajudar a levantar a cabeça dos que resistem neste amor à medicina mais próxima, mais genuína, mais humana e mais completa que é a Medicina Geral e Familiar.

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