Opinião – Futebol, Rei e Senhor

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No passado fim-de-semana, o pindérico Joe Berardo, insolente e malfalante, enxovalhou o país e esfregou-nos nas trombas o triste fado de um país, que se rende ao passa-culpas habitual, como se ninguém tivesse, por si ou pelos seus pares, qualquer responsabilidade naquela javardice.

Não quero ceder à sonsice ou à incompetência que fazem perigar a minha esperança na humanidade, e, pelo contrário, quero exaltar a grandeza de quem combate honradamente, e, por isso, recordando as palavras do rei Robert Baratheon na primeira temporada d’ A Guerra dos Tronos, “traições e punhaladas pelas costas não preparam ninguém para os verdadeiros combates”, em todas as pelejas da vida, da política, ao futebol, amor e negócios incluídos, presto hoje homenagem aos protagonistas da mais aguerrida luta futebolística, que, no domingo, no berço do desporto-rei, disputaram a derradeira ronda da Premier League.

De um lado, o Manchester City (a equipa de Bernardo Silva, o mais ilustre português emigrante na cidade dos inesquecíveis Joy Division), orientada por Pep Guardiola. Com o alto patrocínio da fortuna árabe, o génio catalão construiu uma equipa à medida da sua doutrina de posse e controlo (“se tivermos sempre a bola, nunca somos agredidos”, diz ele) e venceu o mais frenético dos campeonatos. Depois de já ter arrecadado a famosa taça e todos os recordes da Liga inglesa na época transacta, o discípulo de Johan Cruyff voltou a calar os profetas da desgraça que, há dois anos, asseguravam o seu infortúnio e, sem prescindir do seu estilo educado e temperado, provou-lhes os inegáveis méritos da sua ideologia.

Do outro lado, na disputa da liderança, esteve o clube mais popular da cidade dos Beatles. Sedento por um título que lhes foge há quase 30 anos, o Liverpool é conduzido por Jurgen Klopp, o responsável pelo sucesso do Borussia Dortmund frente aos bávaros do Bayern, que não sucumbiu à tentação de treinar a ‘crème de la crème’ e recusou as ofertas dos gigantes de Barcelona, Madrid ou Paris.

E a verdade é que o simpático treinador alemão fez do Liverpool uma equipa ganhadora (que já carimbou o passaporte para a final da Liga dos Campeões, depois de uma histórica exibição frente ao Barcelona do pequeno grande Messi), onde exibe o seu esquema de autor, assente em trocas rápidas, que obrigam a equipa a ‘sofrer’, compacta e rigorosa, criando, na defensiva do adversário, espaços que os seus avançados, rapidíssimos e imparáveis, raramente desperdiçam.

No último jogo, os Reds venceram os ‘Wolves’ do português Nuno Espírito Santo, mas a esperança já não dependia de si e o triunfo em Brighton dos craques de Manchester levou-lhes o célebre ‘caneco’ dos leões e da coroa dourada. Contudo, os famosos adeptos vermelhos fizeram jus ao lema “You’ll Never Walk Alone” e aplaudiram vibrantemente uma equipa que caiu de pé, fechando a temporada com uma ‘performance’ extraordinária ( 97 pontos a apenas um ponto do campeão) e que lhe valeu os justos elogios do rival. “Este foi, de longe, o título mais difícil que já ganhei. Temos de dar os parabéns ao Liverpool e agradecer-lhes, porque nos pressionaram e nos obrigaram a elevar o nosso nível”, disse Guardiola, na ressaca da vitória, elogiando o excelente trabalho do rival alemão.

E, deste modo, no final, ganharam ambos. Feitas as contas, na memória colectiva de todos, sobrarão as glórias da competência, do trabalho rigoroso, da firme convicção na ideologia, qualquer que ela seja ela, provando que o traçado do caminho (à esquerda ou à direita) é instrumental, desde que tenhamos a certeza do nosso destino, e que, aí chegados, nos possamos orgulhar das nossas escolhas.

São assim os combates nobres e leais (infelizmente raros pelas nossas bandas) que dignificam as conquistas e engrandecem os adversários. Venham eles!

(PS: Não posso deixar de agradecer aos meus filhos amantíssimos da ‘bola’, responsáveis por este meu improvável interesse e fontes inesgotáveis da minha informação futebolística) Doluptatus nulpa dem eum faciur?

 

Filomena Girão escreve à quinta-feira, semanalmente

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