Opinião: A sanha

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Com o primarismo que o caracteriza, Bolsonaro defendeu cortes em cursos de ciências sociais e humanidades e que o dinheiro dos contribuintes deve ir para ‘leitura, escrita e fazer conta’. Todo um programa. Secar (congelamento de 30% do financiamento público das universidades federais) o estudo científico dos mecanismos de funcionamento da sociedade, catalogando-o de ‘ideologia’. Demonizar a Sociologia, a Antropologia, a Economia, os Estudos Culturais, a Filosofia, a História, os Estudos Clássicos, criando a suspeita de que são o terreno onde germina o ‘marxismo cultural’ e a ‘ideologia de género’ que atentam contra a ordem natural das coisas. Investir numa escola de funcionários que não pensam nem avaliam, antes se limitam a escrever, a ler e a contar. Sim, todo um programa – é o programa da apologia da ignorância, uma espécie de “viva la muerte” para o nosso tempo.

Sejamos justos e rigorosos: o primarismo de Bolsonaro é apenas a versão bruta de uma aspiração partilhada por muito mais direita que brada publicamente contra os populismos e até gosta de se dizer civilizada. Sim, a desqualificação das ciências sociais – e do pensamento crítico muito em particular – como alegadas produtoras ou de inutilidades ou de sublevação não nasceu agora, tem décadas. E a apologia do ler-escrever-e-contar como função verdadeira do sistema educativo não é uma bizarria do reacionarismo extremo e teve nas políticas educativas da direita liberal na Europa adeptos indisfarçados. Em Portugal também. Os ataques chocarreiros contra a cientificidade das ciências sociais e contra tudo o que sejam epistemologias não rendidas aos cânones do positivismo conservador – as mais das vezes materializadas em ataques de caráter aos seus cultores entre nós – têm sido uma espécie de mantra do nosso conservadorismo liberal.

Percebe-se porquê: uma escola que ensine a pensar criticamente, que tenha a preocupação de desvelar com rigor e solidez de que é que se faz o poder, a hierarquia social, a prevalência de umas ideias em detrimento de outras, essa escola é uma ameaça para os interesses que se protegem politicamente com os trumpismos de todos os matizes.

As ciências sociais e as humanidades são um objeto de intensa luta política. A questão que exige resposta é esta: estamos suficientemente vigilantes para travar essa sanha persecutória contra elas quando ela não se exprimir de modo bruto e espetacular mas sim em modo português suave?

 

José Manuel Pureza escreve ao sábado, quinzenalmente

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