Opinião – “A importância da boa fé”

Posted by

Durante os últimos dias o país assistiu a uma enorme sequência de eventos a propósito da questão da recuperação do tempo de serviço dos professores. O que era público e que ia sendo sucessivamente retocado, dada a excessiva preocupação dos agentes políticos com o marketing, associado a imagens infelizes que pareciam confirmar o total desacerto dos vários intervenientes, deixava uma forte ideia do seu total desinteresse pelos compromissos assumidos, pela justiça e pelo bem do país.
No meio de tudo isso, aproveitando o desconhecimento da maioria da população sobre os mecanismos de decisão na Assembleia da República, mas também de uma forte desconfiança da população relativamente ao trabalho dos deputados, o Primeiro-Ministro, pressionado pelo Ministro da Finanças, disse ao país que aquilo que tinha prometido, isto é, a recuperação integral do tempo de serviço dos professores, colocava em causa a estabilidade financeira do país. Acrescentou que essa recuperação era injusta e perigosa, pois não tinha em conta outras classes profissionais e abriria uma caixa de pandora que colocaria em cima da mesa reivindicações do mesmo tipo às quais o Governo não poderia responder positivamente. Estando em causa a sustentabilidade do país e compromissos internacionais de controlo de défice e da dívida pública, não lhe restava outra opção senão a de solicitar demissão ao Presidente da República. Com esta medida, muito hábil politicamente, o PM colocava-se do lado da sustentabilidade do país, da responsabilidade e da capacidade de decidir tendo em conta o interesse a longo prazo do país. Afirmou isso num discurso cujo conteúdo fazia lembrar coisas semelhantes, ditas, noutro contexto, por Pedro Passos Coelho ou Vitor Gaspar. Ou seja, de uma penada retirava ao PSD a narrativa da preocupação com a sustentabilidade do país, com justiça e equidade, o que, na verdade, depois de o PS nos ter conduzido perto da bancarrota, era uma grande conquista política de curto-prazo. Especialmente num tempo de eleições que lhe estavam a correr tão mal, nomeadamente por ter escolhido um cabeça de lista que muito prometeu, mas nada realizou. Veja-se o programa Ferrovia2020, para não ir mais longe.
Na famosa reunião da comissão de educação, em que as negociações por parte do PSD foram conduzidas pela Margarida Mano, uma mulher séria e de confiança, foi defendido que a recuperação do tempo de serviço dos professores teria de estar associado a clausulas de sustentabilidade e a um quadro geral de negociação com outras carreiras, tarefa que era da competência do Governo e que só poderiam ser conduzidas pelo Governo. Pelo meio, porque o jogo político se sobrepõe, na ânsia de “entalar” o PS, de o forçar a uma decisão de recuperação integral do tempo de serviço (proposta que votou favoravelmente em 2017 ) e de ter aqui uma “vitória política”, o PSD aceitou o impensável: votar a proposta por alíneas. Consequentemente, aquilo que era uma proposta única, ou seja, recuperação do tempo de serviço tendo em conta clausulas de salvaguarda e preocupação em não violar a esfera de competência do Governo, foi votado por alíneas. A recuperação do tempo de serviço foi aprovada, mas as clausulas de salvaguarda não o foram. O PSD nunca deveria ter aceite votar as propostas dessa forma e deveria ter percebido que o resultado final subvertia completamente a sua proposta: isso foi, sem dúvida, uma ingenuidade. A reunião deveria ter sido interrompida ali. Pelo meio, a volúpia comunicacional tomou conta do processo, cometeram-se erros sucessivos em que pareceu que os partidos envolvidos estavam mais preocupados em limpar a sua imagem pública do que em esclarecer o que exatamente estava em causa.
Pelo meio (na 5ª feira passada), existiu uma reunião da bancada parlamentar do PSD em que um deputado, mais uma vez, confundiu o seu interesse pessoal e imediato com o interesse do país e a boa fé que é essencial para a confiança, fazendo sair sobre o que se passou nessa reunião a versão que mais lhe convinha. Há um valor essencial que em tudo isto da política se foi perdendo e que, como sabem, eu valorizo muito (ao limite): a boa fé. A política está cheia de oportunistas, centrados em si mesmos, na imagem que projetam, absolutamente afastados do que é essencial e que procuram somente os ganhos a curto prazo. O rolo compressor que hoje está montado na comunicação social resulta disso. Eu prefiro pessoas de boa fé, que se focam no que acreditam e no interesse da comunidade. A Margarida Mano, com as falhas que são só humanas, é uma dessas pessoas.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.