Opinião – Outra vida, outra visão, outro comportamento

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Na Queima das Fitas de 1954, a Comissão Central vai apresentar-se ao Reitor, Professor Maximino Correia. Ele recebe-nos: “Quem vos diz que o Governo, o Senado e a Reitoria querem que se faça a Queima das Fitas?”. Nós respondemos: “Senhor Reitor, queremos comunicar-lhe que a Queima das Fitas se faz, nem que seja contra a vontade do Governo, do Senado e da Reitoria”. Sem termos combinado, simultaneamente, – parecia ensaiado – levámos a capa, com o braço direito, ao ombro esquerdo, o cumprimento mais cerimonioso da academia e, ao mesmo tempo, pronunciámos as palavras “Bom dia Senhor Reitor, passe bem” e retirámo-nos.
Íamos já à porta dos archeiros, quando vem a correr e diz: “Faça-se a Queima das Fitas, que eu estou convosco sejam quais forem as consequências. Dou-vos já 30 contos que sei que estão sem dinheiro”.
É que a Queima das Fitas, no ano anterior ( 1953 ), foi encerrada por ordem do Governo e Senado, porque, no dia do cortejo (a que assisti), provavelmente animados por uns copos, meteram-se com o guarda republicano de sentinela ao Banco de Portugal, na Portagem.
No ano seguinte, como era da praxe, convidámos o Presidente da República, que era o General Higino Craveiro Lopes. Apresenta argumentos para não vir que eu rebatia, até que utilizou como argumento final “Com o Presidente da República não se discute”. Não sei qual teria sido a nossa cara. Só sei que, por aí adiante, foi de uma simpatia e afabilidade surpreendente. […] Craveiro Lopes mandou um oficial a falar com a Associação Académica de Coimbra. A mensagem era: se se demitir Oliveira Salazar, qual é a posição da juventude? Resposta desta: estamos com ele (pelo menos terá sido esse o sentido). Quando lho transmitiram, terá dito: “Se até a juventude está satisfeita, porque é que me hei-de meter em trabalhos?”. Já não foi reeleito.
Ocorreu-me fazer este escrito porque li no Diário As Beiras sobre a apresentação do livro do Dr. Alberto Martins sobre a greve de 1969 e, como introdução a isto, o ocorrido e qual foi o meu comportamento. Já estava doutorado e com a regência da cadeira de Ortopedia. Decretada a greve, sou o primeiro a fazer exames. Posição que tomei: entra a fazer exame prático quem quiser, ninguém será impedido. Ninguém quis. O Professor Vaz Serra e Mário Trincão estavam num banco no átrio do Colégio das Artes, na expectativa do que haveria de acontecer. No final, dirigi-me a eles e disse-lhes: “Não quis entrar ninguém”. Ficaram aliviados. Dois jovens dirigem-se a minha casa. Os pais eram presidentes da câmara e não lhes davam as mesadas. Dei-lhes o que precisavam, mas, pouco tempo depois, os pais repensaram e foram a pagar. Os representantes dos grevistas foram falar comigo, a saber se poderia arranjar-lhes uma reunião com o Senhor Presidente da República, Almirante Américo Tomás, para apaziguar tudo. Fui com eles, no meu carro, a Lisboa, falar com o assistente do Professor Adriano Moreira, então Ministro do Ultramar. Transmitiu-se-lhe o que queríamos e o que se pretendia. Correu muito bem o encontro. Foi falar com o General Pereira Coutinho, chefe da casa militar, e, com o conhecimento e acordo do Senhor Presidente da República, eram recebidos. Os estudantes pediam desculpa, não se dava notícias na imprensa e tudo ficava apaziguado. Combinou-se o dia e hora do encontro. Telefonei-lhes. Disseram que iam em carro próprio. Eu estava em Lisboa. Esperámos, esperámos. Ninguém apareceu.
O Professor Luís Albuquerque, numa ida a Lisboa, comigo no meu carro, diz-me: “Eles nunca pretenderam aparecer. Estava cá um da greve em França a comandá-los e a ordenar-lhes o que tinham que fazer”. Como poderia ter sido diferente se ao tempo tivesse sido diferente a resposta da Direção da Associação Académica de Coimbra ao General Higino Craveiro Lopes!

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