Opinião – Aqueles anos loucos de 1969

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No dia em que vieram a Coimbra para inaugurar o edifício das “Matemáticas”, o Presidente da República Américo Tomás e o Governo estavam longe de imaginar que o rastilho do movimento estudantil acabara irreverentemente de se acender.
Os volkswagen carocha seguiam naquele 17 de abril à frente da comitiva. Os guardas formavam um cordão, de armas em punho. No largo D. Dinis os pides misturavam-se na população. Eles conheciam os estudantes e sentiam na atmosfera que alguma coisa iria acontecer.
– Em nome dos estudantes de Coimbra peço a palavra – disse Alberto, o presidente da Associação Académica de Coimbra. Alberto é Alberto Martins, um rapaz destemido, aluno de direito, modesto, educado e contido na expressão. Os dirigentes da época não eram sentidos como uma vanguarda ou uma elite, eram os representantes dos seus colegas. Ele aguardou o fim de um discurso para se levantar e projetar aquela frase que se revelou inquietante para o regime. O Presidente Américo Tomás fulminou-o com o olhar. Alberto Martins permaneceu de pé. Ouviu da boca do presidente que agora iria falar o ministro das obras públicas. Após esse discurso, presidente e representantes oficiais encaminharam-se em fila para a porta e sumiram.
Os estudantes, em agitação, ocuparam a sala, fizeram a sua inauguração, com discursos de liberdade, e prometeram a luta pelos seus direitos. No fundo, os seus direitos e os do povo, porque a luta do ensino começou a vergar o regime.
Alberto Martins foi preso pela PIDE às duas da manhã, quando saía da AAC, tendo sido interrogado pela madrugada fora. Espalhando-se a notícia, os seus camaradas organizaram-se e foram rua fora, em manifestação à porta da PIDE. De imediato a polícia soltou os cães. Os menos afoitos experimentaram o peso dos bastões virados ao contrário, para que a parte mais dura fizesse o seu efeito na cabeça de quem apanhasse.
Na sequência do turbilhão que eclodiu em 17 de abril, e dos acontecimentos que lhe sucederam, oito estudantes forram suspensos. Naquela altura chumbava-se pelo número de faltas dadas. A solidariedade é um dos maiores valores da humanidade. A suspensão de oito foi sentida como a suspensão de todos. Reunindo milhares de alunos, a Assembleia Magna, presidida por Décio de Sousa, decretou greve às aulas. A tensão aumentava e a repressão era um gume afiado e sagaz apontado ao peito da liberdade.
O Governo, por decreto, mandou fechar a Universidade de Coimbra até ao início dos exames, reconhecendo assim a sua incapacidade para vencer a greve. O País apercebia-se da gravidade do que se estava a passar.
Mesmo apesar da censura, o encerramento de uma universidade não é facilmente ocultável, como reflete Rui Namorado, o grande historiador das Crises Académicas de Coimbra.
Os estudantes exigiam a sua participação no governo da universidade, a amnistia para todos os alunos expulsos e presos, a reinserção dos professores afastados e o seu recrutamento por via do mérito, a recusa da censura e do bloqueio à iniciativa alheia, o respeito das elites políticas pelos indivíduos.
Será que, 50 anos volvidos, há ainda figuras atuais que nos fazem pensar se a luta académica foi cumprida?

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