Opinião: Abril, mas…

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A comemoração do dia 25 de Abril continua a ser despertadora de paixões. A notícia não poderia ser pior para que pretende acantonar a Revolução na galeria das múmias históricas, veneráveis mas dispensáveis. Mas a Liberdade é a Liberdade e, na sua infinita paciência, permite naturalmente a revelação dos temores de antanho. Anos após ano, alguns dos discursos de sessão solene – claramente pouco comemorativos – não resistem à tentação de associar o 25 de abril ao 25 de Novembro, revelando incomodidade na relação com um passado (afinal) suficientemente presente para que o susto renasça, pelo menos uma vez por ano. Em alguns casos a incomodidade é evidente: “25 de abril, mas…”, dizem, preocupados. E lá saltam para a alusão ao tal dia, 25 também, mas de apelido Novembro, em que Portugal se livrou de uma “ditadura de esquerda”. A cassete do costume, ainda que esteja para ser revelada a evidência da tal “ditadura de esquerda”, num país em que os mais salientes atos de violência criminosa foram os assaltos às sedes do PCP e as bombas dos terroristas do MDLP. O mais grave, porém, é ser já hoje abundante a literatura de investigação sobre o tema, revelando que, se conspiração houve (e houve!) naqueles dias de esperança, foi precisamente a coordenada por um tal Carlucci de má memória, porém admirável eficácia.
Ficámos, no entanto, a saber que é possível comemorar o 25 de Abril sem lhe realçar os traços essenciais: a denúncia do fascismo e a passagem, às novas gerações, da convicção de que os tempos do fascismo não são para repetir. É possível referir o 25 de Abril sem referir o seu significado em temas como a guerra e o analfabetismo, o subdesenvolvimento e a repressão. Para estes meus concidadãos o 25 de Abril, por si só, não vale nada sem o apêndice salvador do tal de Novembro, que ninguém recorda nem comemora, remetido que que à na sua condição de acidente de percurso (e nem sequer estou, aqui, a produzir um juízo de valor).
A verdade, porém, é que, conforme referi na sessão solene: “seria apenas cenário uma evocação do 25 de Abril de 1974 que assinalasse a data sem lhe levantar as bandeiras. Seria inútil a referência que desapossasse o acontecimento da sua natureza transformadora, do seu propósito revolucionário, que lhe citasse os cravos sem lhe sublinhar o fogo. Seria injusto referir 25 de Abril sem denunciar 24 de Abril, abrigando na benesse dos brandos costumes um regime que reprimiu, matou, escravizou, alimentando de suor e de vidas uma coleção de poucos e persistentes apelidos de que a História demora a desembaraçar-se. Decorrido tanto tempo haverá quem pretenda domesticar aqueles dias insurretos e, desmerecendo a efeméride, reclamar até que “o 25 de Abril não tem donos”. Justifica-se a queixa, mas pelas razões contrárias às da sua intenção. Se nenhum valor mais houvesse na emergência daquele dia, teríamos o de se ter assistido à derrocada dos donos: capitães em vez de generais, o povo em vez dos dignitários, a rua em vez dos salões de salamaleque, os abraços em vez das reverências. E decorridos alguns dias, os carcereiros no lugar dos presos políticos, a praça de jorna a tomar a herdade, a Lisnave em vez das festas na Quinta Patiño nas primeiras páginas dos jornais, os militantes clandestinos recuperando o seu nome de registo, a paz no lugar da guerra”.
A Liberdade não tem “mas”, quando se trata do 25 de Abril. A não ser quando o coração não se alegra com a luz que dela escorre.

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