“Mourinho dos Caranguejos” cumpre tradição pascal na praia de Buarcos

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FOTO ARTUR MARQUES VILELA

Dezenas de pessoas da vila piscatória de Buarcos e de localidades rurais do concelho da Figueira da Foz e municípios limítrofes cumpriram hoje, nos penedos da praia do Cabo Mondego, a tradição pascal da apanha de mexilhão.

Logo ao nascer do dia, pouco mais de duas horas antes do pico da baixa-mar – quando os penedos da praia ficam visíveis e acessíveis, numa extensão de cerca de três quilómetros entre a vila de Buarcos e o Cabo Mondego – dezenas de pessoas afluíram ao local, com redes camaroeiras, baldes e outros utensílios, mantendo a tradição popular e secular, cumprida uma vez por ano, a cada Sexta-feira Santa.

Joaquim Fernandes, 71 anos, reformado da marinha mercante “e 47 anos a andar no mar”, nascido e criado em Buarcos, conhece bem a função da apanha de bivalves e caranguejo no Cabo Mondego, que cumpre ao longo do ano, habitualmente para consumo próprio, mas também a história da tradição popular.

“É só para consumo próprio. Não vendo, não tenho cara de feirante”, disse à agência Lusa Joaquim, mais conhecido por “Fê Fê de Buarcos” (iniciais dos apelidos Ferrão Fernandes) e nomeado por familiares como o “Special One of Crabs”, que é como quem diz, o “Mourinho dos Caranguejos”, arte que aprendeu com o pai nos penedos do cabo Mondego “desde garoto”.

Os ensinamentos do pai ditaram a “Fê Fê” que o Penedo Rasteiro – localizado em frente ao restaurante Teimoso – é um dos locais de eleição para a pesca de caranguejo na zona: “O Penedo Rasteiro vai ser o meu cemitério. Quero ser cremado e os meus filhos vão trazer as cinzas para aqui”, afirmou.

Além de cumprir a tradição da Sexta-feira Santa – que não é exclusiva de Buarcos e existe ao longo da costa também nas praias de Cascais ou Sintra, entre outros locais – acedeu ao pedido da filha, “que vem de Lisboa passar a Páscoa” com a família, para ter mexilhão à mesa e regressou a casa com quase dois quilogramas daquele bivalve e 20 caranguejos.

Joaquim Fernandes notou que hoje a praia estava “cheia de gente” – que foi desmobilizando com a subida da maré aliada aos aguaceiros que se fizeram sentir ao final da manhã -, desde pescadores locais, mas também “muitos gandareses”, habitantes da região das Gândaras, que se estende desde o Baixo Mondego até à zona da ria de Aveiro, a norte.

“É uma tradição muito antiga que eles têm, os gandareses vêm todos, desde os tempos em que vinham de burro até Buarcos. E vão voltar a casa e o almoço deles vai ser mexilhão”, ilustrou.

António Lé, armador de pesca e presidente da cooperativa Centro Litoral, destacou à agência Lusa o cumprimento da tradição de Sexta-feira Santa, aludindo ao histórico da “partilha de conhecimentos e amizades” entre os pescadores nativos de Buarcos, “que têm sempre o peixinho para comer”, e as gentes que vivem na periferia do concelho da Figueira da Foz.

Esses, “não tendo o peixe como os pescadores de cá, que por tradição não comem à sexta-feira [Santa] peixe, vêm apanhar os ouriços, os mexilhões, os percebes, vêm apanhar o que há no mar para que se mantenha a tradição de buscar alimentação que não é carne. Vêm à praia e vêm aos penedos de Buarcos”, explicou.

“E cada vez mais, vê-se que os pais fazem questão de reavivar as memórias antigas e a tradição que tinham nesta altura. Fazemos questão de partilhar no presente os momentos bons do passado e transmiti-los aos nossos filhos. E nada disto vem nos livros, é cultural mesmo, é nosso”, argumentou António Lé.

Já José Esteves, presidente da Junta de Freguesia de Buarcos e São Julião e uma vida ligada também ao mar, acrescentou que antigamente a apanha dos bivalves na Páscoa “servia para mitigar a fome”.

“Na Páscoa, só comia carne quem tinha dinheiro para a comprar, porque tinha de pagar uma taxa ao padre e os meus pais e avós não tinham dinheiro, como outros. E enraizou-se esta tradição”, enfatizou.

Já os gandareses, continuou, deslocavam-se ao “cantinho abençoado” de Buarcos, perguntavam aos pescadores locais quais os melhores sítios para pescar “e até ficavam de madrugada à espera da maré” baixa.

Hoje, José Esteves não foi ao mar, mas a filha e netos cumpriram a tradição familiar e seguiram os seus ensinamentos: “Disse-lhes para não irem no pico da baixa-mar, têm de ir um bocadinho antes e apanham a vazante, porque depois, quando a maré começar a encher, já se torna perigoso, o mar está um bocado picado”.

“E não apanhem nunca mexilhão que esteja exposto ao sol”, precisou, revelando que também já ensinou a um dos netos uma localização específica para apanhar percebes nas rochas de Buarcos, “onde poucos vão”.

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