Opinião: Uma manhã de anémonas

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Uma reunião de crisálidas, ou um encontro de tulipas, um debate entre flores garridas e hidratadas. Encontro-as no terreiro da Universidade, todas sensíveis, todas meninas de estufa.

São flores e debatem o seu lugar na banca da Rosa que se aposentou. Essa banca é minha. Essas aulas deviam ser para mim. Colocam os trabalhos de cada uma, expõem demoradas os atributos próprios e fazem caretas ou lançam perfumes nefastos sobre as preciosidades alheias.

As flores dão aulas na Universidade. Ele há dálias atrevidas, cravos vermelhos preguiçosos, mas cheios de convicção. Também encontrei pálidas glicínias deixadas onde nunca bate o Sol.

Longe estão os catos que vão empurrando os outros para se chegarem à primeira fila. Na reunião há mais sussurros que conversas, mais sugestões que afirmações, muitas interrogações apoucadoras, muitas dúvidas construídas de vinagre balsâmico. Acha que ele é capaz?, vê nele um líder? Lembra-se daquela coisa dele em 1996? Já viu a roupa? Há verdades que só os antúrios erectos são capazes, e subtilezas femininas que só as bem arranjadas flores de lírios e crisântemos imaginam. Na reunião havia petúnias e magnólias capazes de tudo para chegar mais alto.

Umas desfolharam malmequeres, outras deram vida aos antúrios mais cansados. Também há invasores e infestantes que acabaram na mesa das flores por arrojo e despautério, falta de vergonha e servilismo.

Na Universidade onde se debate agora o substituto da Rosa na banca da Faculdade surgiram flores que ninguém recordava terem lá andado. Umas viviam de baixa há décadas, outras estavam em licença de longa duração e algumas simplesmente se tinham esquecido delas e portanto recebiam sem trabalhar. As flores vieram com as cores das faculdades, os trajes de gala e à sua volta abelhas, zangões, moscas, formigas, cigarras e libelinhas.

Cada candidato trazia seu séquito. O baile da cadeira durou seis meses, chegaram a dar por certos na banca um antúrio, uma anémona, um lírio do campo, mas ganhou a mais pálida das flores para se chegar ao medíocre consenso, que de novo mandará alguns para casa, outros para onde não bate o Sol e muitos para o seu recanto de ínfima importância mas inusitada vaidade. A Rosa que nunca teve cheiro nem picos, nunca foi do campo acabou exemplarmente substituída por uma tulipa de estufa cinza e envelhecida.

Um produto de muito trabalho da Universidade.

One Comment

  1. Susana Nikolaïdes says:

    Ah! Sr. Diogo Cabrita…
    Que empenho sei ter cabido em todo o seu poema…
    A propósito das belas e fragrantes flores da Universidade, não resisto na insistência consigo do Soneto 94 do Sr. William Shakespeare. Primeiro, na modalidade visual, e depois, na modalidade auditiva.

    Modalidade Visual:

    “They that have power to hurt and will do none,
    That do not do the thing they most do show,
    Who, moving others, are themselves as stone,
    Unmoved, cold and to temptation slow;
    They rightly do inherit heaven’s graces
    And husband nature’s riches from expense;
    They are the lords and owners of their faces,
    Others but stewards of their excellence.
    The summer’s flower is to the summer sweet,
    Though to itself it only live and die,
    But if that flower with base infection meet,
    The basest weed outbraves his dignity:
    For sweetest things turn sourest by their deeds;
    Lilies that fester smell far worse than weeds.”

    Modalidade auditiva:


    Se a ambiguidade for em demasia, para o caso de um seu gosto refinado por concretude, poderá encontrar algum esclarecimento na análise crítica do Soneto 94 realizada pelo Sr. William Empson, em Some Versions of Pastoral, de 1935.

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