Opinião: “Privilégio de dar voz a um país que não podia falar”

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A A.A.C /O.A.F. merece conhecer e pensar um pouco, no legado recebido da Secção de futebol da A.A.C, não o fazendo apenas quando uma das “glórias” do passado nos deixa. São muitas as que já partiram…No percurso brilhante da Secção de Futebol da A.A.C. três épocas merecem uma atenção especial. Ano da “crise Académica” em 1962, quando a Direção deixou de ser constituída apenas por estudantes e passou a ser uma Comissão Administrativa, com ex estudantes. Em 1969, quando a carreira da equipa de futebol da A.A.C. ( nesta altura já autónoma) tem papel fundamental na luta dos estudantes da Universidade de Coimbra. Em 1974, quando o C.A.C. passa a ser o legítimo herdeiro da Secção de Futebol da A.A.C.
Devem-se recordar as lutas travadas e as Entidades envolvidas…

A história para poder ser credível tem que transmitir verdade e não ser deturpada com interesses pessoais, políticos ou outros, mesmo que isso nos obrigue a ser politicamente incorretos. As mentiras tantas vezes repetidas passam de geração para geração como verdades e, assim ficam para sempre… Neste momento irei focar-me apenas na Taça de Portugal em 1969, tocando levemente na envolvência com a “crise Académica da altura”.

Por uma questão de honestidade mental, não me limitarei apenas ao dia da Final da Taça, no dia 22 de Junho, já que o caminho percorrido até chegarmos a esse dia, merece-me todo respeito. Numa visão cronológica de datas em relação aos jogos disputados e ao que se passou nos plenários da Academia, irei procurar ser o mais rigoroso possível, mesmo que isso desagrade a alguém. É um facto indesmentível a atitude corajosa que o então presidente da A.A.C. Dr. Alberto Martins tomou, aquando a visita do Ministro da Educação a Coimbra. Ficou como marco histórico o seu pedido para usar a palavra e a recusa para o fazer.

Não foi menos corajosa a luta travada contra as Forças Militares, Policiais, G.N.R e PIDE, o que levou vários estudantes para a prisão e transformou a cidade (parte da Praça da República e Universidade) num caos. Aos jogadores da A.A.C., onde alguns estavam já formados e outros eram estudante no ensino superior, não lhes passou ao lado esta situação. Manda a verdade que se diga, que ao sermos vítimas de ofensas e de inverdades, nos tais plenários, por uma minoria é certo, de “pseudo” revolucionários, se tenha criado um ambiente distante e de revolta perante tais posturas. Mas Deus mais uma vez viria a escrever direito por linhas tortas. O final do campeonato tinha chegado ao fim de forma atribulada e sofrida. Mário Wilson tinha sido vítima da “chicotada psicológica” e a solução passou pelo convite ao Prof. Dr. Maló. Tudo normal, até que o castigo da F.P.F de dois meses, o fez desistir.

A Direção, convicta que seria curta a nossa presença na Taça de Portugal resolve o problema com o treinador de Juniores, que nos últimos anos tinha ido duas vezes à final do campeonato nacional dessa categoria com o Benfica e, que na altura também acumulava o cargo de Treinador da F.P.F. (zona norte) assim como o Peres Bandeira (zona sul), debaixo da supervisão do Selecionador Nacional Dr. David Sequerra. Era já também Preletor da Formação na F.P.F. : -Francisco Andrade. Os dois primeiros jogos de dificuldade menor foram contra o Ferroviário de Lourenço Marques, o que permitiu a rodagem de alguns jogadores menos utilizados, como foi o caso do Pedrosa, Feliz, Silveste e Luís Eugénio, jogadores que hoje tinham lugar em muitas das equipas que militam na 1ª Liga.

Os resultados foram 6-0 e 1-0. Estávamos nos primeiros dias de Maio. Depois do jogo, na segunda-feira dia 18 de Maio, a Direção chamou-me e disse-me para eu me desligar da F.P.F., pelo menos até acabarem os dois jogos dos oitavos de Final. Assim fiz. Saiu-nos em sorteio o V. Guimarães, que tinha ficado em terceiro lugar no campeonato nacional e nos jogos que tinha disputado connosco tinha empatado 1-1 em Coimbra e ganho 2-1 em Guimarães. O pessimismo da Direção aumentou !..
Escolhi a equipa para o jogo a disputar em Guimarães. Viegas – Curado – Vieira Nunes – Belo e Marques.
Mário Campos – Rui Rodrigues – Peres –Vítor Campos
Nene e Rocha. Manuel António cumpria o serviço militar.
Perdemos por 2-1 com um golo na própria baliza aos 6 m, O nosso golo foi marcado por Peres aos 5m.
No segundo jogo em Coimbra ganhámos por 5-0.
Golos marcados aos 10m por Mário Campos – 32m Manuel António – 61m Manuel António – 68m Gervásio – 81m Vítor Campos.
Não jogou o Peres…
Viegas – Curado – Vieira Nunes – Belo – Marques.
Mário Campos – Rui Rodrigues – Gervásio – Vitor Campos.
Nene e Manuel António.
Este jogo mereceu da Imprensa desportiva os mais rasgados elogios dado a classificação tida pelo V. de Guimarães e pela sua defesa ter sido considerada a melhor do campeonato.
Passados os oitavos de final iríamos agora para as meias-finais com o Sporting Clube de Portugal, que tinha ficado em 2º lugar no campeonato nacional. Era seu Treinador o Fernando Vaz.
Para o jogo de Alvalade escolhi e jogou a seguinte equipa: Viegas – Gervásio – Vieira Nunes – Belo – Marques. Mário Campos ( Crispim aos 85m) – Rui Rodrigues – Peres ( Rocha 49m) – Manuel António e Nene. Ganhámos 2-1 com golos do Peres aos 20m e Nene aos 86m.

Segue-se o jogo em Coimbra. Ganhámos por 1-0 com o seguinte onze: Viegas – Curado – Vieira Nunes – Belo – Marques. Mário Campos ( Rocha aos 81m) Rui Rodrigues – Gervásio – Vítor Campos ( Peres aos 66m) Manuel António e Nene.
Golo de Manuel António aos 73m.
Eis-nos chegados à Final da Taça contra o Benfica, campeão nacional.
Começarei por acabar de uma vez por todas, com uma mentira, que por tantas vezes ter sido dita e escrita, sabes se lá com que intenção, se tornou verdade para muitos. O Artur Jorge não foi proibido de jogar a Final por ninguém. O Artur Jorge saiu da A.A.C. na 17.ª jornada do campeonato, depois do empate com o Varzim de 0-0, em 26 de Janeiro e a Final da Taça de Portugal foi em 22 de Junho. Chega!!!

A minha preleção para o jogo foi dada no Hotel. No balneário apenas disse isto: Vocês têm o privilégio de através do futebol, dom que Deus vos deu para o jogarem, poderem dar voz a um País que não pode falar. Pensem nisso… Saí do balneário logo a seguir.
Viegas – Gervásio – Vieira Nunes – Belo – Marques. Mário Campos – Rui Rodrigues – Peres – ( 68 m Serafim) Vítor campos ( Rocha 90m) Manuel António e Nene.
Golo da A.A.C. aos 82m por Manuel António e por Simões do Benfica aos 85m. 1-1 aos 90 minutos. Benfica por Eusébio marca no prolongamento aos 109 m.
Deixo para outros a explicação do que representou para a Imprensa Nacional e Estrangeira e para todos quantos iam aos jogos. A mudança da camisola preta pela branca e a braçadeira de luto, o adesivo no emblema quando equipávamos de preto, ou a entrada a passo juntamente com o Benfica, com a capa em posição de luto e com o árbitro Ismael Baltazar de Setúbal sem entender o que estava a acontecer, mas a ir na onda…
A não presença, pela primeira vez numa final da Taça de Portugal, do presidente da República, do 1.º Ministro, ou do Ministro da educação, diz bem como interpretou o Governo o papel que o futebol da Secção da A.A.C. teve no “Movimento dos Estudantes da Universidade de Coimbra”. Em 1962 isto não aconteceu porque o futebol não teve hipótese de igualar aquilo que fez em 1969 e por isso ficou silenciada no País. Infelizmente o tal “grupinho” das provocações, ficou em “banho-maria” até 1974, altura em que explodiu. A Secção de Futebol da A.A.C foi salva pelo nascimento do C.A.C. Os troféus que faziam parte da vida da Secção de Futebol da Universidade de Coimbra e de um passado glorioso, foram vandalizados e /ou destruídos totalmente. A história que os julgue.

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