Opinião: No “meu tempo” a cidade

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Sabemos que estamos a ficar velhotes no momento em que dizemos “ainda sou do tempo em que”. Mas a verdade é que eu ainda sou do tempo em que visitar a minha avó, ali na Anobra (no concelho de Condeixa), significava ter de caminhar dois quilómetros entre a paragem das camionetas da empresa José Maria dos Santos, na estrada Condeixa-Taveiro, e o centro da aldeia. O termo “mobilidade” e respectiva preocupação política só chegaria décadas depois, mas, mesmo assim, os meus dois quilómetros de caminho de terra batida, sulcado pelas rodas dos carros-de-bois, era já um sinal de progresso. A minha avó “ainda era do tempo em que” o caminho entre a Anobra e Coimbra – de canastra ou de ceira à cabeça – era feito a pé pelos que, como ela, não tinham posses para a aquisição de um animal de carga e precisavam da Cidade para recolher as poucas moedas de comprar o que fosse preciso.

Esses tempos de gente-nos-caminhos viria a dar lugar a mais cómodas e modernas formas de viver, quase todas começadas no tal 25 de Abril que em breve iremos comemorar, de cujas alegrias ainda sou do tempo. Remetidas ao passado as anobras da minha infância, ainda sou do tempo em que os carros amarelos dos transportes de Coimbra eram o ponto de ligação essencial entre os locais todos da Cidade. Era o tempo em que dizer “longe” era dizer Adémia, Areeiro, Fala. E em que o Tovim, o Calhabé e Santa Clara só não eram longe porque o eléctrico 7 chegava ao primeiro e os tróleis (o 5 e o 6 ) seguiam para os outros dois.

Entretanto distraímo-nos. E demos por nós no tempo em que a Cidade se achou desequilibrada, espalhada sem lógica nem programa pelas colinas que foram olival e horta e agora são urbanização mal-amanhada. Espalhámo-nos por são-martinhos labirínticos e montes-formosos distantes, lugares mal cosidos numa cidade de miolo deserto, em que a “mobilidade” passou a ser uma equação mal resolvida, entre a demora na paragem do autocarro e a invasão do automóvel transformado em necessidade. Sou do tempo em que o termo “gentrificação” não fazia parte das nossas vidas. “Bons tempos”, dirão os de agora quando forem velhos.

Nesta Coimbra cheia de peladas humanas nos lugares que têm saudades dos moradores, a mobilidade é um problema desde que o preço de metro quadrado de terreno passou a definir o desenho da urbe. Redesenhados os lugares de morar, Coimbra passou a ser quase toda periferia, quase toda “longe”. Em poucas décadas, quase toda o contrário do que foi durante séculos.

Eu gostaria que, quando os da minha geração forem já “tijolo” ou fumo, os de-agora possam vir a dizer “eu sou do tempo da construção destas ciclovias que arrumaram os carros nas garagens, do tempo da reabitação do centro da Cidade, do tempo da construção destes equipamentos de desporto e lazer que tanta falta fizeram no tempo da especulação imobiliária”. E, já agora, gostaria que os do meu tempo pudessem ser construtores desse tempo vindouro, capaz de não confundir negócio imobiliário com política de habitação, trotinetas nos passeios com mobilidade suave, fundos de investimento com investimento de fundo. Neste tempo, que começa a ser o dos nossos descendentes, precisamos mesmo de dar reparo aos enganos do “nosso tempo”. Como se dizia no tempo dos nossos avós, “já ontem era tarde” para o tanto que está por fazer.

 

Manuel Rocha escreve ao sábado, quinzenalmente

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