Opinião – Lisboa é um buraco negro

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Seabra Santos, Margarina Mano, Carlos Fiolhais ou Helena Freitas, chamo poucos dos muitos que alertaram para uma “cidade em contínua decadência”. “Falta-nos capacidade de atrair outros, e de os integrar, e, com isso, melhorar a palete de cores, de cheiros, de sabores das comunidades que fazem a cidade”. Mas, tem ainda mais razão Gonçalo Quadros, quando diz que somos um país “fortemente assimétrico […] vergonhosamente centrado em Lisboa. Lisboa é um buraco negro. Tem atraído tudo e mais alguma coisa, o que tem ajudado a que uma espécie de deserto prospere numa parte importante do país”.
Sei, sabemos todos, que é imperioso o país concretizar políticas públicas justas no combate à assimetria territorial. Sabemos? Será claro para todos que os territórios se desenvolvem com os recursos locais e com os que para lá se enviam?
O ensino superior público dispõe de uma rede de 192 residências que preenchem 13% das necessidades dos estudantes deslocados. Na expetativa de democratizar o ensino, o governo anunciou em maio de 2018, com pompa e circunstância, o Plano Nacional de Alojamento para o Ensino Superior (PNAES). A pretensão era clara e visava disponibilizar fundos para a intervenção e transformação de edifícios do estado em residências de estudantes. Trazia a ousadia de querer duplicar a oferta em 10 anos, i.é., aumentar em 15.400 o número de camas.
Menos de um ano depois, foi publicado o DL 30/2019, que prevê a criação de três modalidades de alojamento, sendo uma delas a da reabilitação de imóveis através do Fundo Nacional de Reabilitação do Edificado. Numa primeira fase, entre novas construções, reabilitações, ampliações e reconversões, foram identificados 122 imóveis. Pousadas da juventude, mosteiros, palácios, conventos, escolas, prédios, vivendas, apartamentos e, até, a antiga Fábrica de Pólvora de Barcarena. Na verdade, o plano inicial de 2018 foi reduzido para 11.500 camas. Poder-se-ia exigir manter um plano mais audacioso, mas, creio, é a contribuição possível do nosso estado social. O título deste artigo não recai, portanto, no PNAES, mas no facto da maioria destas camas se situarem na área Metropolitana de Lisboa (precisamente 6.817 camas). Vergonhosamente, 60% do total do Plano nacional de investimento é para ser implementado na Capital!
Quando a centralização é descarada, a idiotia e o roubo custam mais. A área metropolitana de Lisboa tem cerca de 2.550 camas e Coimbra 1.800. Por outro lado, a percentagem de estudantes deslocados em Coimbra é o dobro da verificada em Lisboa. A manterem-se constantes as restantes variáveis, e concretizando-se o Plano, daqui a 10 anos o rácio cama por deslocado na capital passará dos atuais 9,2% para 35%, quando em Coimbra se ficará pelos 12%. É a receita de sempre, com a velha solução: colocar “os contribuintes de todo o país a financiarem os privilégios da capital”, mesmo que em contradição com a recente medida de retirar 5% do numerus clausus às duas áreas metropolitanas redistribui-los pelo país.

São estes privilégios, legislatura após legislatura, denunciados por Vital Moreira, e o deslumbramento pacóvio dos que migram da província para a capital que não muda o que já vem das Prosas Bárbaras de Eça: “Lisboa nem cria, nem inicia; vai. / As ondas que solucem, as florestas que se lamentem, ela tem o riso radioso e sereno”. Continua coveira de almas, mas agora também semeia a erva que cobre as ruínas do país! Como um buraco negro, possui uma força devastadora que suga tudo e todos. Nada, nem os sonhos, nem mesmo a côdea lhe escapa.

One Comment

  1. Susana Nikolaïdes says:

    O Sr. Paulo Simões Lopes, que habitualmente também é lúcido (todavia, imperfeito), veja que não há uma descontinuidade entre a província e a capital. Aliás, nem se entende bem a distinção, se bem reflectirmos. O Sr. Paulo Simões Lopes queira ter a gentileza de pensar no território dito de português como um panejamento, e alguns de nós, habitantes desse território, como uns pequenos insectos. O fraco exercício dos bacocos e das bacocas a que faz menção, poderá residir na dificuldade em devenir-insecte, e ter o entendimento experiencial de que a superfície de um território, como aquele que delimita um país, e a própria Terra, é uma coisa contínua, mesmo que parte esteja escondida ou fora do campo de visão.
    Dizia assim o Mestre Escultor – o que me terá deveras ensinado a desenhar também os panejamentos – acerca do Trilho do Insecto: “To test the clearness of your finished drapery study, imagine that a small insect (preferably a pleasant one) starts at one side and crawls horizontally across the drapery. Imagine that his feet have been dipped in ink so that he leaves a trail behind him. This trail would move up the side of a fold, flat across the top, down the other side, flat across the base. Coming to an undercut, the insect would disappear and then come out again higher or lower according to your eye-level. (…). This trail is comparable to a cross-contour line on the figure. It is like walking over a landscape, up over hills, down into valleys. The piece of cloth, like the contour of the figure or the surface of the earth, is one continuous thing even though part of it may be hidden from view. There must be no unexplained gaps or holes in it.”

    Assim, não será por via do deslumbramento bacoco, pacóvio, mas pelo bacoco, pacóvio, deslumbrar-se com tão pouco – outros panejamentos que não são geografias, expressões territoriais…
    Insisto que olho e vejo Areté (Virtude) seguindo, invariavelmente, desnuda, enquanto que Kakia (ou Vício) vestindo, invariavelmente, nobres panejamentos.

    Este insecto não pelejaria em causa própria, ainda que calhasse ter sido nada em Coimbra, em Lisboa, ou em qualquer outro lugar, e tudo por conta da tal continuidade esquecida por muitos.

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