Opinião – “Há bens que vêm por males”

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Tentando espantar tristezas momentâneas, dizemos, quase sempre, que por detrás de uma tempestade vem a bonança, embora um bom economista, mas pouco conhecido, que estudei falava que depois da bonança vem a tempestade. Conta-se até que:
“Quando a fatalidade atirou para as plagas africanas aquele que Clemente respeitava como irmão e como mestre, não trepidou em acompanhá-lo, partilhando o seu desterro e as suas dores.
Morto o irmão, voltou a Portugal, e estabeleceu-se em Coimbra. Insensível ao sofrimento penoso que colhera no clima d’África, pediu à sua vitalidade a energia suficiente para conservar o crédito de bom artista que seu irmão aqui deixara”1.
Contudo, é a nossa luta que nos prepara para futuras lutas, mesmo que estas sejam bem difíceis, São uma forma de inocular stress sem pagar a um qualquer psiquiatra para o fazer. Também um passado de restrições financeiras, prepara-nos, pelos mecanismos associados, para viver com pouco dinheiro, fazendo-nos organizar a vida de outra forma. Dizem-nos até que a necessidade aguça o engenho. Mas, isso acontece enquanto há vida e a consequente esperança.
Tudo muda quando um grupo de ex-alunos mata os seus jovens colegas numa Escola de S. Paulo ou quando são mortas na Nova Zelândia muçulmanos, mostrando como este mal nada pode trazer de bom. Nem sequer podemos acreditar que a democracia pode conter estes perigos entre limites aceitáveis.
De facto, afirmações sobre a necessidade de armar professores para conter a violência nas escolas feitas por Donald Trump e imitadas pela sua caricatura brasileira, que é Jair Bolsonaro, nada nos anunciam como bom, embora este se está transformando numa personagem de comédia, mas até lá vai fazendo estragos. Há, contudo, gente que diz que as instituições democráticas funcionam e as judiciais também, trazendo para este mar encapelado que é este nosso tempo, bonança ou seja vento calmo.
Apesar de tanta esperança, ao abrirmos os jornais encontramos demasiada violência dentro das famílias e nas relações de namoro que deviam ser de amor. Ninguém parece apontar o dedo à transformação do capitalismo num sistema predador da natureza, incluindo a natureza humana, que se desumanizou perante o alheamento dos Homens pela sorte dos seus Semelhantes, criando até barreiras artificiais para as migrações.
Vemos até um aumento continuado da idade da reforma, mostrando como se aposta numa continuada penosidade do trabalho em idades em que muitos já morreram e quase todos têm achaques, não esperando tempos melhores.
E tudo isto se faz para tapar buracos obscenos em bancos, escondendo sempre as razões por que tal aconteceu.

1 António Gonçalves – Vida e Obra de Adelino Veiga:
Poeta-operário conimbricense, 1º volume, Grupo de
Arqueologia e Arte do Centro, GAAC, Coimbra, 1993, p. 56.

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