Opinião: A imagem das velhas vendo morrer a tarde

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Tenho o vício não confesso de abrir os livros antes de os comprar, apenas porque gosto de ler o primeiro parágrafo. É um vício. E, como tal, dá-me prazer. Os resumos interessam-me pouco. E os finais menos ainda. Mas sinto uma vontade irrefreável de decifrar o “lead”, aquelas primeiras linhas, perscrutando-as, procurando os vestígios vagos da meia-luz resvalada onde possa procriar uma qualquer precipitação. Folheio-os de trás para a frente, para não vincar as folhas iniciais, que são especiosamente as mais frágeis.

Depois sigo tateando outras obras, plumosas, deixando ao acaso se nos seguem, imaginando o nome às coisas, tocando destinos sem saber se existem. Neste lugar, todas as ideias medram. As livrarias e bibliotecas públicas são, por excelência, lugares de cultura, embora assistamos sem raridade à sombra espinhosa das que tombam abandonadas às mãos crespas e bruscas de apêndices que as fatigam em detritos burocráticos.

Coimbra tem uma das mais extraordinárias bibliotecas do mundo. Obra-prima do barroco, a Biblioteca Joanina – junto à também singular Biblioteca Geral da Universidade –, foi mandada edificar por D. João V e é hoje um dos principais deleites de visitação.

Mas Coimbra tem outros polos de peculiar interesse, onde se destacam o seu rio, os museus, a universidade, os monumentos, os espaços naturais e o singular Convento de São Francisco, obra pública de elogiável visão. Para quem não se lembra, foi outrora uma casa em escombros, de teias de aranha derreadas de pó, após o encerramento da unidade fabril que lhe deu o último uso. A fusão da arquitetura conventual do século XVII com a linguagem contemporânea, gizada pelo arquiteto Carrilho da Graça, trouxe-lhe uma nova vocação cultural. A competência dos seus colaboradores e a elegância e o desvelo com que o fazem, a mão criteriosa dos gestores, devem ser razão de orgulho para Coimbra. Afastou-se o estigma do elefante branco. Os mais de mil lugares do seu auditório enchem sempre que surge um bom conteúdo.

Coimbra, mesmo que a deixássemos nua e nada nela vestíssemos, seria (e será) sempre uma cidade encantada. Seria (e será) sempre a terra fecunda onde a semente cultural brota com docilidade. Falta que a descongestionemos e que a libertemos. Que a escutemos sem a interromper.

Na semana passada teve lugar o mais importante encontro até aqui realizado pela candidatura de Coimbra a Capital da Cultura. Precisamente no Convento de São Francisco. Era para ser o evento de união, de debate, de demonstração de força. Penso que o cartaz foi razoavelmente bem pensado e que os intervenientes, praticamente todos, auguravam acrescentar algo de novo. Desejava assistir aos trabalhos, não fosse um contratempo de saúde ter-me retido em casa durante vários dias. A aposta foi elevada, como uma prova de vida. Infelizmente, só umas escassas 30 ou 40 pessoas presenciaram o semblante vazio de uma sala lúgubre, preparada para 1125 lugares. “Quase se podia ouvir o som de um gato a caçar um pássaro”, contou um jornalista que por lá passou. Houve silêncio. Às vezes o silêncio não é bom, sobretudo quando faltam pessoas para o fazer.

Num artigo anterior tive a oportunidade de deixar registadas algumas sugestões. E de chamar a atenção para a necessidade de dialogar, agregar e assim aproximar a comunidade deste projeto. Teríamos tanto a ganhar… São precisas ideias fortes e impactantes que deem conteúdo a algo que tem de ser ímpar e deixar marcas para o futuro.

Não há grande mal no insucesso da iniciativa da semana passada, a não ser que dela não se retire lição alguma e se persista na exasperação de enganos. Às vezes é preciso fecharmos aquelas portas que não nos levam a lado nenhum. Ainda há muito que pode ser feito. Ao contrário de tantos, eu ainda acredito! Por isso não podemos consentir que falte vida à história que contamos de Coimbra profunda, delicada e bela. Temos de dar as mãos por Coimbra. E não podemos permitir que sejamos tolhidos pela imagem das velhas de xaile negro, sentadas no rebato vendo morrer a tarde.

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