Opinião – Um país que faz tudo para não crescer

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Portugal teve mais uma década perdida. Desde o 25 de Abril, é mais uma década em que não crescemos e não nos reorganizamos. Continuamos como sempre, à espera que alguém de fora nos imponha mudanças, poupanças, organização e um propósito.
Aliás, os números dizem que o período 2000-2020 será o pior da história de Portugal dos últimos mais de 150 anos. E foi um período onde não faltou o dinheiro para investimento e para reorganização. Não se esqueçam que nesses 20 anos, em que o país foi governado pelo PS e pelo PSD-CDS, Portugal contou com mais de 50 mil milhões de euros de fundos de coesão (o QREN e o PT2020 ). Apesar disso, e como resultado de um misto de má-governação, influência de eventos externos e total desinteresse pelo nosso futuro coletivo, Portugal foi à falência e teve de recorrer a ajuda externa de emergência, o que resultou na presença de uma troika no país. Pelo meio, faliram bancos e nada foi feito para perceber o que tinha acontecido e responsabilizar quem se apropriou do dinheiro dos contribuintes. Na verdade, um Estado falido, que teve de pedir cerca de 75 mil milhões de euros a entidades financeiras internacionais para honrar os seus compromissos, gastou, neste período, quase 20 mil milhões em bancos (aproximadamente 1/4 do que tinha pedido emprestado para resgatar o país). Para além disso, colapsaram os serviços de saúde, de educação, os transportes, etc., resultando num país que não entende o mundo em que vive, pois não se prepara, não se reorganiza e tem total aversão à mudança. Somos um país que não percebe que aquilo que podemos redistribuir tem de ser gerado pela nossa atividade e tem de ser bem gerido – de forma transparente, responsável e responsabilizada – pois, caso contrário, o resultado é dívida, desequilíbrio e, de novo, falência.
Em vez de se focar no crescimento e na reforma do Estado, o Governo em funções desde 2015 geriu promessas. Depois de um período em que era muito difícil crescer ( 2008-2013 ), dadas as enormes dificuldades internas e internacionais, mas no qual o país fez algumas reformas (apesar de ter adiado muitas outras), o país não tem desculpa para os crescimentos medíocres que revelou a seguir. Não aproveitou o período de aperto para as reformas necessárias, na economia e na estrutura do Estado, e foi incapaz de perceber que o objetivo central deveria ser reorganizar-se, lançando as bases para um ciclo de crescimento muito acentuado. Ao invés, centrou a sua ação numa política de devolução de rendimentos, sem explicar aos cidadãos que não é possível redistribuir aquilo que não se produz, procurando mobilizá-los para a necessidade de mudar de rumo que garantisse que o país seria capaz de gerar recursos e estaria preparado para futuras crises financeiras. Como consequência, e aproveitando um período em que o dinheiro era muito barato, o país cavalgou os seus medíocres crescimentos aumentando largamente a sua dívida pública e privada.
Pois, mas o cenário ficou negro de novo. A situação é, de novo, explosiva. O que já era medíocre (economia) está a desacelerar (o que é até reconhecido pelo PM) e o país não está, de novo, preparado para dificuldades. O que temos pela frente é um cenário de contestação social muito acentuada, em que vários setores profissionais, cansados de anos sucessivos de má gestão e baixos rendimentos, aliada a uma perceção de que o país tem sido malgovernado nas últimas dezenas de anos, se mostram revoltados e pouco dispostos a colaborar. A geração dos 30-40 anos percebe agora que os baixos rendimentos que aufere são uma consequência das péssimas escolhas feitas pelo país e que se traduziram na incapacidade de crescer. Em 2018, Portugal recuperou o valor de crescimento que tinha tido em 2008. Se nestes 10 anos tivéssemos crescido à taxa média de 1.8% (a mesma registada de 1999 a 2007 ), o país estaria hoje a produzir cerca de 50 mil milhões de euros a mais, o que nos colocaria num cenário muito diferente: nos rendimentos e nos serviços do Estado.
Quando ouço falar em milagres na economia nacional e observo odes laudatórias a ministros das finanças, fico abismado. O que vejo, sem ser masoquista, é um país desorganizado, sem rumo, que não cresce e é incapaz de gerar os recursos necessários para suportar os rendimentos que promete aos seus cidadãos e para manter os direitos que definiu na constituição da república: a saúde, a educação, a proteção social e até a democracia.

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