Opinião: “Por qué no te callas”

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A resposta do rei de Espanha, Juan Carlos, “Por qué no te callas” (“Porque não te calas”), ao presidente da Venezuela da época, ficou na história do anedotário político mundial.
Pois sim, por lá, o silêncio é de ouro, agora, mais do que nunca, pois já ninguém aguenta os disparates de um ‘chavismo’ protagonizado por um Maduro autista, que teima em negar uma calamidade evidente e intolerável, ainda que os maiores aliados do Guaidó, gente pouco recomendável, sejam portadores da maldita sede de petróleo em vez da atenção de que o povo venezuelano precisa.

Sucede que a famosa pergunta se tornou património de todos, de grande utilidade por cá também. Senão vejamos:

O que aconselharíamos nós ao juiz Neto Moura, que há uns tempos invocara a Bíblia para justificar um valente arraial de pancada a uma mulher adúltera, e, desta vez, retirou a vigilância electrónica a um agressor condenado por ter rebentado a soco um tímpano à ex-mulher? Não terá ele percebido que a violência doméstica é um problema sério, que dispensa as suas (parvas) opiniões? O que interessava mesmo, para que a lei pudesse cumprir as suas funções de prevenção, era que ele julgasse factos e, já agora, que os julgasse bem… “Por qué no te callas”?

E o que dizer também ao Conselho Superior de Magistratura que, até agora, não encontrou razões para realizar uma inspecção ao serviço deste juiz, dando mais um sinal do costumeiro corporativismo deste país, onde ninguém erra, já se sabe (o que, no limite, põe em causa a nossa humanidade), e onde, por isso, nada muda. Tristemente, nesta matéria, os culpados somos todos nós, porque nos calamos, em vez de criarmos desassossego, porque, como dizia o Zeca Afonso, “nós temos é de ser gente, pá”.

E o que diríamos também ao juiz Ivo Rosa, aquele que, segundo o Acórdão que anulou a sua decisão de proibir o acesso a dados bancários de dois arguidos do caso EDP, se perdera em “considerandos marginais e extravagantes”? Sendo o juiz responsável pela decisão mais importante da história da democracia portuguesa, que julgará um ex-primeiro-ministro acusado de corrupção, “Por qué no te callas”, então?

E ao Ricardo Salgado, que, com uma lata descomunal, veio acusar Passos Coelho de ter provocado “consequências negativas no BES”? “Por qué no te callas”?

E ao Nuno Mocinha, presidente da Câmara de Elvas, que defendeu a legalidade de um concurso para 82 novos funcionários, onde integrou 27 familiares e amigos, excluindo uma jovem deficiente para colocar a mãe da sua ex-secretária? “Por qué no te callas”, também?

E ao Carlos Costa que veio desculpar-se porque, no fim das contas, “só fazia figura de corpo presente na CGD”? “Por qué no te callas”?

O silêncio é de ouro, de facto, e, como cantam os Einstürzende Neubauten, uma banda alemã dos anos 80, ‘Silence is Sexy’. Esta não é a minha música favorita do grupo, mas ouvi-a vezes sem conta, no carro, na era dos leitores de CD (um dos meus filhos, aliás, miúdo pequeno, lindo de morrer, de tanto a ouvir, cantarolava-a com piada e arrancava sorrisos a todos que o ouviam).

No último sábado, por grande insistência de outro amor meu, que não se resigna com a minha resistência a cenários de apocalipse, vi o filme ‘A Quiet Place’ (‘Um Lugar Silencioso’) e reencontrei os encantos do silêncio, desta vez num silêncio protector, sinónimo de vida, com John Krasinski, actor e realizador, e a mulher, Emily Blunt, a mostrarem que o amor pode ser silencioso e, ainda assim, impor-se em cada toque, de peles ou olhares. Continuo a não gostar de cenários pós-apocalípticos, mas confesso que o silêncio me vai conquistando sorrateiramente, até mesmo quando cria desassossego, porque “temos de ser gente, pá”.

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