Opinião – “O banco SFF”

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Catarina sentava-se sempre num banco.
– Se me encosto distraio-me! Dizia.
Não queria poltronas nem cadeiras.
– Peço sempre o banco!
Depois estudou economia e acabou a trabalhar em finanças. Claro que foi num banco. Também aí escolheu sentar-se num banco e fugiu das cadeiras.
– Estou mais focada se não apoiar as costas!
Catarina conheceu os gestores e fez acompanhamento de jeitos, encontros de contas, observou transacções manhosas, decisões absurdas. O seu salário é o mesmo de sempre. Sem aumentos, mas com comissões. Assinou papeis que lhe deram por ordem, cumpriu com zelo e dedicação. Catarina tinha adaptação ao inesperado, capacidade de resolução de surpresas. Foi ganhando confiança no círculo mínimo de pessoas que rodopiavam entre os patrões. Conseguiu emprego para o namorado.
– Foi só uma vez que pedi e já lá estava. Fiquei contente, como é óbvio!
A lealdade nasceu assim. Levou envelopes, aprovou empréstimos, cumpriu objectivos, alterou tabelas, “corrigiu” factos e aprendeu que a verdade não estava nos papeis, mas na boca dos patrões.  Foi ela que deu um empréstimo até aos cento e vinte anos à Sofia que agora está nos jornais.
– Pois se a Sofia é filha do patrão!
– Acha que não lhe dava o dinheiro?
Catarina foi inquirida na Comissão Parlamentar por um tipo que aprovara todos os detalhes fraudulentos nas comissões anteriores. O Carlos era deputado e grande amigo do Armando. No gabinete do Armando já tinha visto um indiano famoso da PT e um Sr. mais velho que era doutro banco. O Armando emprestou ao Carlos, emprestou à filha, emprestou a três ou quatro que eram do Governo, a um que tinha museus, a outro que tinha sucatas, a outro que era construtor em Angola, a um outro que tinha investimentos em fazendas, aparentemente a um que diziam que matava velhinhas.
– Todos lá iam e me tratavam lindamente.
– Comprei a casa com os prémios de produtividade!
– Aliás o Sr. sabe-o bem pois também lhe concedi uns créditos por ordem do Patrão!
Gelou o tribunal!
Catarina está agora no banco dos réus que não tem encosto. Está confortável com a posição, mas nervosa. Desde que começou o julgamento que não viu ninguém a quem concedeu dinheiro. Parece que foi tudo decisão própria, que não havia chefes nem superiores. Catarina sentada no banco, falando do banco, resolve mudar a estratégia.
Vou contar-lhe tudo meritíssimo. Vou falar-lhe do dinheiro e das pessoas e da coisa sórdida que aqui se passou. Alguém lhe enviou um bilhete neste instante. Ela abriu e leu corando que “o seu marido acaba de ser despedido, o seu filho vai ter de mudar de colégio”.
Encostou-se um pouco para ganhar ar, mas o banco não tinha apoio e caiu. Catarina estava agora em directo nas redes sociais. “Veio alcoolizada para o tribunal carregada de falsidades”, “possivelmente militante dos partidos de direita” comentavam em barda.
Levantou-se e iniciou a sua defesa. Contou dos esvaziamentos do cofre, dos empregos aos amigos, dos subsídios a colaboradores, das transferências offshore, dos bancos na Síria e na Líbia, e lentamente foi abrindo a alma e explicando a vergonha e lacrimejando a memória suja. Portugal corou e indignou-se, mas voltará a ter o deputado Carlos, a mesma lista de escroques, que por cegueira não fiscalizaram, os mesmos analfabetos que não leram os documentos, os mesmos políticos que se venderam por empréstimos e sinais exteriores de riqueza.

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