Opinião – Metro-Mondego: linha do tempo

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Quando se olha para os números do Metro-Mondego, não é possível deixar de pensar que esta é a verdadeira história de Coimbra. Uma cidade/região adiada, muito mal servida de decisores públicos e de homens/mulheres de missão, habituada a viver de imagens e totalmente incapaz de tomar nas suas mãos o seu futuro. Gastaram-se até hoje mais de 110 milhões de euros durante 27 anos, fizeram-se mais de 100 estudos, lançaram-se e cancelaram-se concursos e contrataram-se pessoas. O resultado foi, até hoje, NADA. Minto, o resultado é negativo, porque se retiraram às pessoas os serviços que tinham.
1906 – Inicio da ligação de Coimbra a Ceira, Mirando do Corvo e Lousã, conhecido como Ramal da Lousã;
1930 – Extensão dessa ligação a Serpins;
1974 – Constituição de um grupo de trabalho com o objetivo de recolher dados sobre os problemas do Ramal da Lousã;
1983 – Acidentes mortais que levam à interrupção da circulação de comboios na cidade e tornam urgente que se pense no problema. Apareceram logo as promessas de desnivelar a passagem de comboios na zona da Portagem, eletrificar o Ramal da Lousã, etc.;
1992 – Estudo preliminar da integração de um metro ligeiro de superfície no Ramal da Lousã, denominado Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM) – começou a festa;
1994 – Diploma Governamental que reconhece a necessidade do SMM e a urgência em encontrar soluções mais sustentáveis que tenham em conta os custos do desnivelamento na Portagem, da eletrificação, etc.;
1996 – Constituição da empresa pública Metro-Mondego (MM) que tinha como objetivo realizar o SMM;
1997 – A MM realiza o primeiro estudo de viabilidade técnico-económico do SMM. Ao longo do tempo, muitos outros se haviam de realizar;
2001 – O Estado entra no capital da MM ficando com 53%, a Refer e a CP com 2.5% cada uma e as Câmaras de Coimbra, Lousã e Miranda do Corvo com 14% cada uma;
Entre 2003 e 2015 – uma infinidade de relatórios, estudos, avaliações, folhas de cálculo, pareceres, gastos com cartão de crédito da empresa, simulações, muitos boys e girls, etc., etc., etc.
2008 – Primeiro concurso público para material circulante, posteriormente anulado. Outros se haviam de seguir… e ser anulados;
2009/2010 – Interrupção do serviço ferroviário e remoção dos carris. As populações ficam sem transporte, até hoje. Pelo meio, estudos e mais estudos, projetos de arquitetos famosos, mais estudos, mais relatórios, mais pareceres, trabalhos de realização de interfaces, mais estudos, mais folhas de cálculo, mais avaliações;
2011 – Apesar dos inúmeros estudos, relatórios e avaliações, o Governo decide interromper as obras em curso. A Comissão Europeia, diz o texto do Governo, considera o projeto financeiramente inviável (quase 20 anos depois do primeiro estudo e 15 anos depois de se ter formado a empresa pública MM) e tem muitas dúvidas sobre a consistência da análise custo-benefício, isto é, a cidade de Coimbra, cheia de “sapiência”, foi incapaz, mais de 100 estudos depois, de fazer uma análise decente de custo-benefício de uma obra simples: 30,6 km de ligação entre Serpins e o Alto de São João, 6,9 km de ligação a Coimbra B e 3,7 km de ligação aos hospitais. Pior era impossível;
2011-2019 – Imensas peripécias, vários ministros, várias ideias, mais estudos, mais folhas de cálculo, mais promessas, mais avaliações – descobre-se que afinal a Comissão Europeia não sabia nada sobre o MM (arrepio!) -, etc., até que o Ministro Poiares Maduro aparece com a brilhante solução do Metro que afinal não é comboio, mas é BUS. O Metro-Bus, mal recebido pela câmara Coimbra e outros parceiros, tornou-se na solução “agora é que é”;
2019 (fevereiro) – O Governo, pela mão do Ministro Pedro Marques, lança mais um concurso público, desta vez para a primeira fase desta nova era do malogrado Metro-Mondego. No total, dizem em tom eleitoralista, são 120 milhões de euros: 85 milhões de euros para as infraestruturas, 20 milhões para o material circulante e 15 milhões para a estação de Coimbra-B. O Governo que promete isto, em ano de eleições, é o mesmo que prometeu 2,7 mil milhões de euros, num programa que denominou Ferrovia 2020, para revolucionar o transporte ferroviário em Portugal. Novas linhas, novos comboios, eletrificação, etc., etc., etc. Em 20 obras, só 6 estão em curso e muitas das outras nem começaram, foram chumbadas ou têm problemas de planeamento. Dos 2,7 mil milhões, o Governo executou aproximadamente 7% (muito menos de 200 milhões de euros).
Passaram 27 anos deste o estudo preliminar. Entretanto, Coimbra atrasou-se no tempo, é uma cidade/região abandonada, sem amor-próprio e sem voz. É uma cidade/região ferida no seu orgulho e no seu bom-nome. A cidade/região que um dia sonhou ter a melhor Universidade do Mundo – construindo de raiz aquilo que hoje mal se vê na Rua da Sofia -, a cidade que já foi a 3ª cidade do país, não conseguiu em quase 30 anos construir um sistema de mobilidade que a servisse. Querem contar a história recente desta cidade/região? Contem a história do Metro que já não é comboio, mas é BUS. Se não estiverem atentos, um dia será chinelo: Metro-chinelo. Aliás, já é desde 2010.

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