Opinião – Crer no que os outros nos dizem

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Se me está a ler, peço-lhe que fique mais um pouco. Se me está a ler, este artigo poderá dizer-lhe respeito. Se me está a ler é porque, em princípio, aprecia a leitura e ganha tempo com isso.
Eu comecei a ler muito novo. Onde morava, os livros escasseavam e recordo-me bem de ler várias vezes a mesma obra, repetidamente, até que os olhos soubessem de cor os detalhes das folhas garatujadas e os textos que em cada leitura assumiam novos significados.
Depois veio a Gulbenkian trazendo numa carrinha vermelha a sua biblioteca ambulante, uma vez por mês, emprestando três livros. Eu era dos primeiros a entrar. Chegava a ir com mais de três horas de antecedência para guardar vez. Encostava a minha bicicleta Sirla roda 20 a um muro e ela lá ficava, domesticada, à espera do dono. Depois vinha mais pesada com os livros. E descia a rua mais depressa …
Cedo aprendi que viver sem ler é perigoso, pois obriga-nos a crer apenas no que os outros nos dizem. A história está agrilhoada a casos em que a inquisição queimava obras, a ditadura proibia publicações e, em alguns casos, em plena democracia, instituições retiram das suas políticas públicas o apoio, o estímulo e o melhor acesso à literatura. Confesso o meu fascínio por livrarias e bibliotecas. O livro é talvez o meu “vício” mais evidente.
Quando vim estudar para Coimbra, com 12 anos, passei a ser assíduo na biblioteca municipal, que ficava em frente à polícia. Naquela altura, as obras, expostas em prateleiras altas de madeira, tinham de ser requisitadas com recurso a um registo composto por pequenas fichas de cartão, em armários com gavetas metálicas. Hoje tudo mudou.
Qualquer biblioteca tem sofisticadas bases de dados informáticas. Em segundos, uma pesquisa fornece-nos todos os dados pretendidos. Hoje, aliás, as bibliotecas estão equipadas com computadores, internet rápida, têm tomadas junto a todas as mesas de consulta para que os utilizadores possam usar os seus computadores portáteis. O investimento é escasso face aos benefícios que projeta.
As bibliotecas devem ser espaços híbridos de fruição cultural, onde o físico e o virtual coexistem. Os seus visitantes usam-nas não apenas para a consulta de obras, mas também para ler, estudar, pesquisar. Usam-nas para encontrar livros, filmes, jornais e revistas, fotografias, ilustrações, entre muitas outras coisas. Acontece que na profusão de títulos, o registo informático é hoje fundamental. Os chamados “ratos de biblioteca” já não as percorrem com uma vela por entre corredores esconsos. Eles hoje são aos milhares e vêm soprados por ventos de modernidade e sofisticação. Por isso, quase pode dizer-se que uma biblioteca que não cuida da sua interação com os utilizadores não pode chamar-se biblioteca, pois não passa de um depósito de livros.
Há alguns anos, enquanto fazia doutoramento, tive o privilégio de conviver amiúde com os funcionários da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e da Biblioteca Municipal. Pude testemunhar a sua dedicação, o gosto pelo que fazem, o conhecimento adquirido que é colocado em benefício dos cidadãos, o seu interesse na resolução de lacunas que tantas vezes deles não dependia.
Defendo que o livro deve estar entre as principais políticas culturais no Mundo e as bibliotecas públicas devem ser espaços de fruição e de modernidade. Entre um livro e uma calçada, não devemos hesitar na escolha… Se alguém antes de nós não tivesse investido no apoio à publicação de livros, o que teríamos hoje para ler? Se as políticas públicas não preservassem a expansão do livro, estariam a contribuir para uma sociedade acéfala e de pensamento irrefletido, potenciado pelo apressado e perene vazio que parece estar a abater-se sobre a sociedade. Não deixemos que tal aconteça. Viver sem ler é perigoso, pois obriga-nos a crer apenas no que os outros nos dizem.

One Comment

  1. aires esteves says:

    Esta frase diz tudo: "(…)Cedo aprendi que viver sem ler é perigoso, pois obriga-nos a crer apenas no que os outros nos dizem. A história está agrilhoada a casos em que a inquisição queimava obras, a ditadura proibia publicações e, em alguns casos, em plena democracia, instituições retiram das suas políticas públicas o apoio, o estímulo e o melhor acesso à literatura. Confesso o meu fascínio por livrarias e bibliotecas. O livro é talvez o meu “vício” mais evidente"!.

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