Opinião – “Comboios virtuais num diálogo virtual”

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Coimbra não se dá bem com Comboios. Talvez por isso, tem uma estação de comboio de quinquagésimo quinto mundo, vê a cidade atravessada por linhas férreas que ligam esse miserável apeadeiro a outra “estação” mesmo no centro da cidade – separando a cidade do rio – e não conseguiu realizar o Metro-Mondego. É verdade que criou uma empresa, em 1996, para o realizar. Mas como isso de fazer bem dá muito trabalho, verifica-se que, depois de alguns milhões de euros gastos e muitos “boys” e “girls”, não há nenhum metro novo, também já não existe o comboio antigo, que mal ou bem ainda transportava as pessoas para a cidade, e ninguém faz puto de ideia do que inventar mais. Minto, desculpem, pelo meio surgiu a mágica ideia de transformar o metro/comboio num BUS. E sem mágico a ajudar, o que é fantástico. Com esse passe de mágica, que permitiu reduzir fortemente o investimento, parecia que a coisa ia andar. Devagar, mas ia. No entanto… não andou! Com o galo que Coimbra tem para os comboios, eis que o Ministro das Infraestruturas, um ano depois do passe de mágica transformador, anuncia, em pleno conselho de ministros, que tem 85 milhões de euros para o Metro-Mondego: o tal que já não é comboio, mas é BUS. O presidente da câmara ficou danado. Ainda tentou disfarçar com entrevistas aos jornais em que manifestava o seu contentamento, mas tratou logo de telefonar ao Ministro.
– Está, Senhor Ministro, é o Manuel de Coimbra. Como vai?
– Bem, Manuel de Coimbra. Já viu a notícia? Temos 85 milhões para ini…
– Ó Sr. Ministro, excelência, era mesmo sobre isso que lhe queria falar. Eh! Pá, tenha dó de mim. Por amor de deus não comece com os seus anúncios! É que isso dá galo!
– Como? Dá galo? Mas não está contente? Não estou a perceber!
– O Senhor Ministro anunciou, em 2016, com grandes parangonas públicas que tinha 2,7 mil milhões para a ferrovia. No entanto, só executou até agora 7%. Menos de 160 milhões de euros. A maior parte das obras nem foram ainda a concurso. Outras estão paradas por mau planeamento. Outras foram chumbadas pela comissão europeia, mesmo depois de você as ter anunciado, pomposamente, em cerca de 1321 sessões públicas, com direito a transmissão televisiva e discurso em direto.
– Mas ó homem, isso são coisas que acontecem. Os erros de planeamento são normais.
– Normais? Essa nem eu consigo “vender”. Eu sei que sou um especialista nisso, veja-se o aeroporto internacional de Coimbra, mas dizer que erros de planeamento são normais é, talvez, um bocadinho demais. Ó Pedro das infraestruturas anunciadas, tem lá dó de Coimbra.
– Desculpe Manuel de Coimbra, mas com o Ferrovia 2020 estamos a modernizar a ferrovia. A investir o que nunca se investiu. A comprar os comboios que nunca ninguém comprou. A fazer…
– Ó Pedro, ainda ontem um comboio espanhol perdeu o motor a diesel em andamento, pá! Tem lá juízo e pensa no que dizes.
– Pois, como vê Manuel de Coimbra, em Portugal não é como em Espanha, onde os motores a diesel das automotoras estão presos por arames.
– Ó Pedro, a automotora que perdeu o motor estava em Portugal. Foi alugada por ti, depois de jurares que estavam em perfeitas condições de funcionamento. A viagem em que perdeu o motor era do Porto para Valença.
– Pois, quer dizer, é isso mesmo. Estamos a modernizar as linhas, a acabar com o diesel, esse combustível maldito. Vamos fazer tudo elétrico e limpo. Como dizia o meu colega do Ambiente, o diesel está condenado. Os comboios a diesel não valem nada, têm motores muito instáveis e inseguros. O risco de caírem durante a viagem é muito sério.
– Ainda no outro dia anunciaste 1341 vezes o lançamento de um concurso de 22 comboios novos – para daqui a 4 anos – em que 12 são mistos, isto é, a diesel e elétricos.
– Eu? Quando? Mas ninguém me diz nada? Dão-me os papeis para ler sem me explicar? Eh pá, desisto. Vou para deputado europeu, que ao menos lá os comboios funcionam.
– Mas, entretanto, não anuncies nada para Coimbra. Assina os papeis, telefona lá à Comissária Europeia a ver se ela concorda e, por favor, passa o cheque. Não anuncies nada. Os teus anúncios dão um galo do caraças. Ainda descobrem que o BUS não é a melhor solução e estamos feitos de novo. Passamos a chinelo. Metro-Chinelo!
– BUS? Mas quem é que falou em BUS?
– Ai! o caraças! (desligou)
(Diálogo totalmente imaginado pelo autor)

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