Opinião – Coisas de toda a gente

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Voltemos às afirmações fundamentais. O feminismo não é uma coisa de mulheres. O feminismo é uma coisa de mulheres e de homens, porque é uma coisa da democracia e é uma coisa de direitos de igualdade e de diferença. Em cada mulher que é afastada da vida política e associativa por causa de uma cultura instalada que a remete para o espaço doméstico como seu habitat natural, é a democracia que é apoucada no seu pilar fundamental da participação sem diferença de todos/as. Em cada mulher que é discriminada no salário que recebe por trabalho idêntico ao de um homem, é a democracia que é ofendida no seu pilar fundamental da igualdade de direitos de todos/as. Em cada mulher que é vítima de violência física, psicológica ou verbal – em casa, no namoro, na rua – é a democracia que é violada no seu pilar fundamental da intocável dignidade de todos/as.

O que mina a democracia e os direitos de todos/as é o lastro fundo que torna “natural” tudo isso. E quando uma sociedade tem como código de funcionamento “normal” a discriminação de direitos e de tratamento, impõe-se juntar a lei e a mobilização social para que assim deixe de ser.

À lei exige-se que seja um suporte robusto da prevenção e punição de discriminações contra as mulheres. É por isso que uma política de quotas é importante, é por isso que um Código Penal mais ajustado a essa função é importante, é por isso que um aplicador da lei que a desaplica em nome das convicções atávicas que ela combate tem que ser sancionado.

Mas nenhuma lei transformará por si só aquele lastro fundo que naturaliza a discriminação e a violência. Precisamos de gestos simbólicos e políticos fortes que mobilizem a sociedade para esse combate. A greve feminista internacional de 8 de março é um desses gestos.

Dir-se-á que não faz sentido uma greve que não tenha reivindicações laborais na sua base. Contra isso, eu digo que faz todo o sentido uma greve que se faça sentir em todas as áreas da vida em que as mulheres são discriminadas e onde a luta por direitos de reconhecimento se exprime: no trabalho, claro, mas também nos cuidados domésticos e familiares, nas escolas, no consumo, nas tarefas de educação e formação.

Se as vidas correntes, distraídas de como a normalidade é violenta e discriminatória, pararem um dia para que a consciência dessa violência e dessa discriminação se reforce, é claro que a greve feminista valerá a pena.

É por causa da democracia e dos direitos de todos/as que eu sou feminista e apoio a greve feminista de 8 de março.

 

José Manuel Pureza escreve ao sábado, quinzenalmente

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