Opinião: A Universidade de Coimbra tem de mudar

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Os desafios que a Universidade de Coimbra tem pela frente são complexos e fortemente decisivos do seu futuro a curto e médio-prazo. Apesar dos sucessos conquistados no passado recente e da esperança que transporta a nova equipa reitoral, há aspetos importantes que exigem reforço, maior dedicação e pensamento estratégico.

O primeiro desafio é o da comunicação. A Universidade de Coimbra (UC) tem de dar a conhecer, na primeira pessoa e com as suas realizações, o seu corpo docente e de investigadores. Mostrar onde trabalham, como desempenham a sua atividade e como podem ajudar a Universidade, a região e o país. Estamos a fazer isso menos bem, talvez por ter sido considerado menos prioritário, daí a nossa menor visibilidade (que é somente circunstancial). No entanto, com um plano certo, claro em objetivos, devidamente financiado e com uma equipa dedicada (que existe na UC), tenho a certeza de que em breve estaremos numa posição muito diferente. O problema da UC nunca foi, nem nunca será, qualidade.

O segundo e muito exigente desafio do reforço da ligação à economia e às empresas. Considero este o desafio essencial dos próximos tempos, pelo impacto transformador que terá no financiamento e em transformações internas na UC. Não estamos a ser tão eficazes como devíamos nesta tarefa, nomeadamente na imperiosa necessidade de promover as relações de I&D em consórcio com empresas. Isso não terá só um forte impacto nos mecanismos de financiamento da UC, mas também, e essencialmente, no tecido económico à nossa volta e na geração de emprego qualificado (mestres e doutorados com emprego na indústria – um aspeto que o recente relatório da OCDE intima Portugal a desenvolver).

A UC tem condições para fazer isto muito melhor do que tem feito e é preciso reconhecer que as estratégias desenvolvidas não resultaram. A solução não é de fácil realização, pois terá de ser o resultado de uma estratégia coerente – negociada com os parceiros relevantes – com 4 vertentes: a UC (fonte), que tem de valorizar e incentivar projetos em consórcio, dando-lhes simultaneamente visibilidade e valorizando carreiras que lhe dedicam tempo e recursos; a incubação (de ideias e de projetos industriais), que precisa de se estender dando espaço não só à incubação de novas ideias, mas também a realizações industriais em consórcio que atraiam empresas para a região de Coimbra (tirando partido da competência instalada e do conhecimento desenvolvido); o financiamento (especialistas em fundos e programas de financiamento), que a UC tem de ser capaz de atrair de forma muito mais eficaz e pró-ativa, liderando programas, iniciativas, ideias, novas formas de organização e gestão, para que seja possível canalizar para a região, sob liderança da UC, maiores volumes de financiamento comunitário, privado e de outras fontes de financiamento (disponíveis em várias plataformas) – esta é outra das tarefas que não fazemos bem; e os locais de localização empresarial (condições logísticas para realizar e atrair ideias e negócios), tirando muito maior partido de espaços em que de alguma forma a UC tem influência decisiva (como o Biocant e o iParque, por exemplo, mas também outros parques empresariais espalhados pela região).

Ninguém em Portugal faz bem esta ligação universidade-empresas. Coimbra tem condições para o fazer com sucesso, porque tem a possibilidade de desenvolver estratégias nas quatro vertentes mencionadas. Só não as está a coordenar com eficácia e propósito (metas bem definidas, equipas focadas em objetivos e decisões organizativas que se impõe e que acima referi de forma breve).

O terceiro desafio essencial é o da ciência e do conhecimento gerado. A ciência tem de estar na linha da frente de todas as decisões estratégicas. Não há Universidade sem ciência. Não há ensino de qualidade sem ciência. Não há política de recursos-humanos que não tenha por base a ciência e as condições em que se realiza (o que implica docentes, investigadores e funcionários). Não há apoio à economia sem ciência. A ciência é a nossa mais-valia, aquilo que nos distingue. No entanto, tem de ser colocada ao serviço da comunidade de forma muito mais efetiva: na forma como ensinamos, nos cursos que somos capazes de desenvolver (que se distinguem pela qualidade e pela valia dos), na prestação de serviços, no I&D em consórcio, na transformação social e económica que é, em última análise, o objetivo último da Universidade.

O quarto e muito urgente desafio é o do ensino. A UC tem de se preocupar mais com a forma como ensina nos seus vários cursos, sejam eles de Licenciatura (1º ciclo), Mestrado (2º ciclo), Doutoramento (3º ciclo) ou outros níveis complementares. Deve procurar afastar a ideia de ser uma casa de ensino demasiadamente teórico e livresco, procurando mecanismos de ensino prático e aplicado que reforcem a transmissão de conhecimentos, mas também a competência técnica e prática de quem passa pela UC. À excelência da formação teórica, que se deve manter e reforçar, é necessário adicionar competências de saber fazer, de aprender a saber fazer e de procurar saber fazer.

Nesse domínio, até porque isso tem forte impacto na atratividade de estudantes e novos públicos, a UC tem de repensar a sua estratégia e investimento para o futuro, até porque há aqui uma dimensão de mudança de mentalidades de dirigentes, docentes e alunos que é essencial equacionar. O futuro aponta para três competências básicas: sociais e emocionais (como a sociabilidade, o comportamento ético, a atividade fortemente centrada no desenvolvimento sustentado, a capacidade de comunicação e a autoconfiança – aspetos que o ensino de qualidade, baseado em conhecimento e ciência reforça), tecnológicas e de conhecimento (expondo os alunos a trabalhos científicos e técnicos de alta qualidade) e cognitivas (pensamento crítico, fortes competências científicas, capacidade de processar informação complexa, etc.).

A Universidade de Coimbra tem de mudar. Isso não é um desejo, mas antes um imperativo de sobrevivência como grande Universidade nacional e europeia.

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