Opinião – À Mesa com Portugal

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Neste tempo frio e cinzento de paisagem ainda despida é um regalo passar junto às casas e olhar a mancha laranja que as laranjeiras nos dão. É um sol em cada quintal. Carregadinhas a fazer vergar os ramos, as laranjeiras lembram que este é o tempo de comer as laranjas. Diziam os antigos das terras planas do Mondego que “quem come laranjas antes do Natal ou é burro ou é animal”. Saber de experiência feito com as laranjas a amargarem antes da época natalícia. Já pelo Algarve, terra de céu luminoso, em Dezembro, as laranjas eram abundantes e docinhas sendo motivo de ornamentação das árvores de Natal.
Visões diferentes de um fruto que acontece por todo o país, mas que é no Algarve que adquire maior expressão de produção. A tal não serão alheias condições históricas, mas também um solo e um clima propícios a sua propagação. De tal modo, que as laranjas do Algarve fazem parte do grupo “Citrinos do Algarve IGP” cuja forte e organizada produção fazem deste fruto um poderoso elemento nas nossas exportações.
A riqueza é muita no que respeita a laranjas. É como o seu sumo, alimenta muitos imaginários e muitas histórias. Importa saber que as primeiras espécies trazidas pelos árabes para a Península Ibérica eram as “azedas” pelo ácido do seu sabor. São os portugueses que nas suas relações comerciais com a China trazem a versão doce Citrus Sinensis que se adapta com toda a naturalidade ao solo calcário algarvio e aproveita de forma gulosa a muita exposição solar daquele pedaço de Portugal. Se até aí a laranja não fazia a diferença na alimentação, esta vinda da China fez criar uma relação bem sumarenta entre os portugueses e aquele fruto. Razão mais do que suficiente para a música popular “Olha a laranja da China, que nasce no arvoredo, não te ponhas à esquina, que eu passo e não tenho medo”. O amor a sobressair na “Laranjeira de pé d’oiro, que dá laranjas de prata, tomar amores não me custa, deixá-los é que mata”. O povo sabe bem a importância das coisas.
Que nisto de laranjas o Algarve é território privilegiado já todos sabemos. Lindo é perceber que as laranjas do Douro surpreendem pela sua qualidade, como pela forma como são comidas. Do mesmo modo que outros frutos como a figueira e a amendoeira têm grande expressão no Douro, as laranjas de Carrazeda de Ansiães, Freixo de Espada à Cinta, Alfândega da Fé e Moncorvo eram, no século XIX, referenciadas pela elevada qualidade. As bravias, abrigadas e solarengas encostas do Douro eram solo fértil para os laranjais que produziam grande quantidade de laranjas que, depois, desciam o Douro nos Barcos Rabelo conjuntamente com o vinho, o azeite e outros produtos. Num quotidiano difícil, as menos sumarentas e mais ácidas serviam de refeição de meio-dia aos camponeses numa receita que, hoje, até parece gourmet. Cortadas às rodelas e já sem os caroços, as “laranjas azeitadas” eram salpicadas com sal grosso e alho picado e regadas com azeite. Eram depois comidas com pão e azeitonas. Agridoce? Curiosidade, pelo menos, suscita. A mostrar como a alimentação é elemento de estratificação e escalada social, mais tarde, esta “laranja azeitada” transforma-se em “laranja dos ricos” e “laranja dos fidalgos” com a adição de açúcar e como acompanhamento a assados.
Depois da maçã, a laranja é o fruto mais consumido no mundo e Portugal, não estando entre os primeiros países produtores, ocupa pronunciado lugar de destaque. Pelas caraterísticas que as nossas laranjas têm e que, orgulhosamente levámos para outras paragens ao ponto de na Turquia, Irão, Roménia, Grécia, a palavra laranja estar associada foneticamente a “Portugal”, devemos fomentar, por um lado a diversidade, e devemos, sobretudo, consumir laranjas portuguesas. A laranja portuguesa faz bem!

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