Opinião – Objectivo 116

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Os partidos à direita do PS continuam a insistir no número mágico dos 116 deputados, o tal que permite a maioria parlamentar. A vitória obtida nas eleições legislativas de 2015 revelou-se insuficiente porque não atingiu essa maioria que permite governar. Por isso, para o PSD e para o CDS, cada um à sua maneira, já não importa verdadeiramente vencer as eleições, mas sim conseguir ter deputados suficientes para, sozinho ou com outros deputados, governar Portugal. Como não parecem apostados em vencer as eleições, o discurso sai direccionado para a importância do número de deputados e a ambição é somá-los a outros para poder formar governo.

Ninguém nega a evidência aritmética dos 116 deputados, mas podemos analisar o caminho traçado para lá chegar. É para mim evidente que a coligação “Portugal à Frente” venceu as eleições legislativas de 2015 porque os portugueses acreditaram e votaram numa ideia de país e de governo que hoje não têm, pois ninguém votou na geringonça, que ascendeu ao poder por via da junção dos tais 116 deputados à esquerda no Parlamento. O poder caiu no colo de António Costa apesar da derrota. Mesmo sem colocar em causa a sua legitimidade, o próprio já percebeu que para ganhar em 2019 tem de apresentar a ideia de um país, que é o que verdadeiramente motiva as pessoas irem votar.

O risco de que o PS de António Costa hoje foge é o mesmo que os partidos à direita do PS agora abraçam, que é bem mais do que a contabilidade do número de deputados. É a percepção que as pessoas têm disso, ao verem partidos a “contar cabeças” como um meio de ascensão ao poder, um mero esquema que transforma o país e o Estado num meio para alcançar um fim, quando julgo que prefeririam que Portugal fosse o desígnio que deveria motivar a sua acção. Em 2015, os portugueses não puderam evitar a geringonça, mas em 2019 estão cientes de que o esquema pode repetir-se, agora também à direita.

De certeza que os programas, que ainda não são públicos, hão-de trazer alguma luz sobre o que os partidos querem para o país, mas vai ser cada um por si. No fim da noite eleitoral, de que valerá ao PSD ter mais deputados se, juntando-se ao CDS, não obtiver os tais 116 (isto no pressuposto de que o PSD quer apear o PS da governação)? E de que vale ao CDS crescer à custa do PSD se juntos não obtiverem a maioria? Cada um pode dizer que obteve uma vitória partidária, mas ambos dirão que perdeu o país. Estou convicto que quem em 2015 votou na PaF votou numa ideia de país, acreditou num projecto ao serviço de Portugal. Seria por isso uma atitude responsável que à direita do PS se pensasse o país, em vez de se exibir a soma dos 116 deputados como instrumento para alcançar o poder.

 

Paulo Almeida escreve à quinta-feira, semanalmente

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