Opinião – Os fins não justificam os meios

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Se o leitor me permite, gostaria de lhe falar um pouco, sobre um livro. O livro é de Garry Kasparov, ex-campeão mundial de xadrez, intitulado “A vida imita o xadrez”. Neste livro o autor revela como faz a análise de um jogo de xadrez, em três dimensões: Material, Tempo e Qualidade. Durante o livro explica como esta análise pode ser aplicada às situações da nossa vida.
Num jogo de xadrez o Material diz respeito às peças. Na nossa vida o Material pode assumir a forma de pessoas (profissionais e pacientes), de dinheiro (gasto ou recebido) ou de outros recursos materiais. O tempo é igual em todo o lado. A Qualidade é o resultado vitorioso que advém de uma ação.
Tal como no xadrez passamos a vida a analisar o Material, o Tempo e a Qualidade que temos, que poderemos ter e que queremos ter. Agora deixamos o Kasparov de lado e vamos ao Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Hoje em dia é inegável que a sociedade atual atravessa uma crise ou, se quisermos, um momento em que a realidade como a percebemos, o nosso paradigma, é colocada em causa. A crise não deixa o SNS ileso. Dos profissionais aos pacientes todos fomos afetados.
Os profissionais viram as suas carreiras congeladas, os vencimentos reduzidos, os pagamentos de honorários adiados, os descansos compensatórios não autorizados, as horas extraordinárias não pagas, os recursos humanos a ficarem escassos, os recursos materiais a desaparecer. O Material do SNS foi diminuído. As peças que podemos usar desapareceram do tabuleiro.
Num jogo de xadrez a análise de tempo pode ser feita por um cronómetro que vai sendo colocado em pausa ou a andar em cada jogada, impondo ritmo ao jogo. Na vida dos profissionais do SNS o cronómetro não tem pausa. É marcado pelo tempo de vida, quer dos profissionais, quer dos pacientes. Todos irão morrer. Todos têm um tempo. Como profissional de saúde não preciso de um cronómetro para me recordar disso. Ainda no outro dia, em casa, contava uma história à minha filha sobre um pequeno pássaro que tinha morrido porque estava velho. À noite, quando a ia deitar, perguntou-me porque a minha barba estava tão branca, respondi-lhe que era o tempo a passar. Olhei para ela, tinha as lágrimas nos olhos e dizia-me que queria que o tempo parasse. Foi das vezes que pensei que o meu tempo chegará um dia e o dela também.
Com o tempo a contar e sem material para jogar os profissionais de saúde estão encurralados por um adversário, contra o qual é difícil lutar: o silêncio e a indiferença do sistema político. Em constantes Xeques, aguardando o desfecho final. Esta situação leva a um desespero cada vez maior. Muitos dos profissionais já não acreditam que seja possível dar a volta. Estamos encurralados, com medo que diminua a qualidade dos serviços que prestamos, diminuindo a qualidade de vida e aumentando a probabilidade de morrer. Como se para matar, o tempo já não fosse suficiente.
Tal como um jogador, sem jogadas possíveis que o levem à vitória, tentam-se novas. Estas novas jogadas cirúrgicas, que visam apenas sacrificar um peão, quando postas em movimento, acabam por vezes por sacrificar mais e fazem-nos perder o jogo. O problema é que neste jogo, perante uma derrota, não haverá ninguém a celebrar a vitória. Ganhará o tempo, a barba ficará branca e chegará o fim que a todos espera.

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