Opinião: Governação arco-íris

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Desde o momento do nascimento da geringonça que nos pudemos aperceber do tipo de governação a que iríamos estar submetidos. Muita da esquerda tem a irresistível apetência pela governação imediata, uma angústia visível pelo agora. É como se só houvesse o tempo presente e nada fará sentido se não for servo desse momento. É uma governação errada, na minha perspectiva, porque não faz sentido falar do “agora”, nem sequer do “presente”. E falhada porque cria a ilusão de que existe algo de “bom” no fim do arco-íris (no futuro), mas onde nunca chegamos porque não passamos do tempo presente, lugar de onde quem pratica este tipo de governação não quer sair porque bem sabe que mais vale ter a impressão de que existe algo no fim do arco-íris, do que lá ir certificar-se disso e verificar que não passa de uma mentira.

Mas, de facto, estes últimos anos de geringonça criaram uma bolha de tempo presente, que, mais do que um virar de página, pretendeu ser uma substituição do tempo passado da austeridade. Esse tempo parece ter acabado para António Costa, que veio à televisão com a sua mensagem de Natal dizer-nos que não se ilude com os números, reconhecer os problemas que persistem apesar da geringonça e falou de futuro, dos grandes desafios que serão prioridade do seu próximo governo, a natalidade e o aproveitamento do território. Aparte a credibilidade que cada um confere a este tipo de declarações, regista-se uma alteração no discurso socialista que finalmente vem falar do futuro de Portugal. Será esta só uma questão timing político em face do clima pré-eleitoral instalado a que se refere o nosso presidente Marcelo Rebelo de Sousa, afinal mais uma jogada de Costa destinada a tentar vencer os próximos embates eleitorais?

Qualquer que seja a resposta, notou-se logo algum desagrado nas reacções da extrema-esquerda à esquerda do PS. Numa declaração que deixa de boca aberta de espanto qualquer pessoa, o PCP veio a terreiro denunciar a “contradição inequívoca” entre o caminho trilhado e o caminho traçado, como se o PCP não fizesse parte da contradição. E o BE alertou para a “obsessão” do governo em ir além das metas definidas por Bruxelas, como se BE não fizesse parte dessa “obsessão” para a qual agora alerta. No fundo, estes partidos querem a manutenção da governação arco-íris, estão presos na ilusão do tempo presente, avessos a pensar o futuro porque isso requer estabilidade que a sua intrínseca entropia não permite.

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