Opinião – Em quem confiamos para contar a História?

No dia em que o mataram, o jornalista saudita Jamal Khashoggi, homem corpulento e de conduta gentil, colunista do Washington Post exilado nos EUA, foi visto pela última vez a entrar num consulado na Turquia. Ia tratar dos papéis para o seu casamento, a noiva ficou à porta, à sua espera. Mas ele não voltou a sair vivo. Desde há muito tempo ousava discordar do governo do seu país, a Arábia Saudita. Escrevia sobre temas incómodos e punha em causa medidas levadas a cabo pelo príncipe herdeiro Mohammad bin Salman. Foi assassinado por isso.
No dia em que o mataram, em 02 de outubro de 2018, 15 elementos dos serviços secretos sauditas aterram na Turquia em dois jatos privados. Tinham hotel marcado para três noites, mas saíram do país no mesmo dia. Duas horas e meia depois de o jornalista ter entrado no consultado, as câmaras de vigilância do edifício registaram a saída de seis carros com matrícula diplomática, com 15 passageiros a bordo, seguidos de uma carrinha de vidros escuros. A família real, claro (!), negou o envolvimento. Mas eis que veio ao de cimo a verdade dos factos, rodeada de pormenores macabros, como os gritos de Khashoggi dizendo não conseguir respirar. E depois a descrição dos sons do corpo de Khashoggi a ser desmembrado com uma serra usada pelo grupo de assassinos, enquanto eram aconselhados pelo médico legista a ouvir música para se abstraírem dos ruídos. Chegou a condenação internacional. Em tom ameaçador, Donald Trump prometeu medidas drásticas. Mas logo a seguir algo o fez amansar. Decidiu passar uma esponja sobre o caso e remeter-se à nulidade nefasta que de facto é.
Noutro hemisfério, Soe Oo e Wa Lone, dois jovens jornalistas da agência noticiosa Reuters, foram condenados a sete anos de prisão por noticiarem a morte de dez pessoas de minoria islâmica dos roinjas. Eles estão presos por um crime que não cometeram e isso tem levantado muitas questões sobre o compromisso de Myanmar com a democracia. O seu julgamento foi manipulado, tendo sido acusados de violar segredos de Estado. Os repórteres estavam a investigar a morte, em 2017, de dez roinjas, durante ações de repressão militar contra essa comunidade muçulmana, num caso que a ONU rotulou de genocídio, tendo já levado mais de 700 mil roinjas a fugir para o vizinho Bangladesh, em resultado da violência das forças armadas birmanesas e das milícias budistas. Os roinjas não são reconhecidos pelo governo de Myanmar, tendo direitos como a cidadania, movimento e permissão de residência limitados, sendo considerados apátridas e levando-os a refugiar-se em guetos e favelas. Os dois jornalistas foram presos pela denúncia da trágica verdade.
Não muito longe dali, Maria Ressa enfrenta uma pena de dez anos de prisão depois de ter sido acusada de fraude fiscal na criação do site Rappler, espaço que usa para denunciar os casos de abuso de poder do presidente Rodrigo Duterte, das Filipinas, sobretudo os que levaram à morte de 12 mil pessoas numa guerra contra o tráfico de droga. A jornalista, de 55 anos, continua a não ter o reconhecimento da acreditação pelo seu governo para o exercício da profissão, estando em situação de ilegalidade forçada como forma de a silenciar.
“Posso dizer-vos uma coisa: vamos publicar o maldito jornal amanhã”, anunciou o jornalista Chase Cook, após quatro jornalistas e um vendedor do seu jornal, o norte-americano Capital Gazette, terem sido mortos num tiroteio, no final de junho. Pela resiliência da equipa do jornal, a Time escolheu o Capital Gazette como um dos “guardiões” por continuar a fazer jornalismo.
Cada um dos casos que aqui lembrei são escolhas da Time para “Figura do Ano 2018”, distinguindo jornalistas considerados como “Os Guardiões da Verdade”. Gente que defendeu a verdade com a própria vida, para levar a informação ao público. A questão que se levanta é a de saber, em tempo de fake news, em quem confiamos para contar a história?

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