Opinião: Amor, amor e mais amor… 20 e tal vezes amor

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“O azul do céu precipitou-se na janela. Uma vertigem, com certeza. As estrelas, agora, são focos compactos de luz que a transparência variável das vidraças acumula ou dilata. Não cintilam, porém.
Chamo um astrólogo amigo:
– Então?
– O céu parou. É o fim do mundo.
Mas o outro amigo, o inventor de jogos, diz-me:
– Deixe-o falar. Incline a cabeça para o lado, altere o ângulo de visão.
Sigo o conselho e as estrelas rebentam num grande fulgor, os revérberos embatem nos caixilhos
que lembram a moldura dum desenho infantil.”
(Carlos de Oliveira)

Em tempo de festas, partilho um texto de que gosto muito. Bem sei que os inventores de jogos são raros e especiais, mas é deles que gosto e são eles quem me faz sonhar. Para minha sorte, nunca me apaixonei por nenhum astrólogo, capaz de prever o fim do mundo. Ao contrário, fazem-me feliz as pessoas capazes de inclinar a cabeça e de alterar os ângulos de visão, as pessoas capazes de descobrir estrelas onde outros vêem apenas o fim do mundo. São atraentes e inspiradoras, e, magicamente, arrebatam-me.

Há umas semanas um amigo desafiou-me a abandonar a maledicência (quiçá em favor da minha putativa ambição política). Devo dizer-vos que não mais me esqueci do desafio, bem sabendo que a crítica mordaz me tenta tão perigosamente quanto a serpente do Jardim do Éden. E eu que pecadora me confesso, decidi hoje falar de felicidade e, com o novo ano à espreita, a reclamar os habituais votos de saúde, paz e amor, para 2019 é a magia do amor que a todos desejo. Amor… amor filial, fraternal e maternal (ou paternal, conforme o caso)… amor/amizade por uns quantos amigos que também são família, mesmo que não sejam fruto do mesmo ventre… amor romântico, carnal, apaixonado… enfim, todos os mágicos amores.

Muito amor e a necessária sabedoria para não ter medo de amar, para acreditar em quem nos ama, para não fugir da emoção das palavras, da força dos abraços ou do calor dos beijos, e para amar sem medo do desamor do outro, ciente de que o amor faz bem, humaniza, aguça os sentidos e refreia a fatídica razão.

Muito amor e a necessária coragem para dividir silêncios, birras e gargalhadas e distribuir anseios, somar alegrias e dividir medos.

Muito amor e a necessária sorte para encontrar alguém tão inspirador quanto atraente, tão desafiador quanto fascinante, tão sedutor quanto envolvente, alguém cujos olhos nos cativem e cujos lábios nos prendam, alguém que nos arrebate e nos faça sorrir, um dos tais raros mágicos, inventores de jogos.

Muito amor e a necessária desfaçatez para desafiar convenções e costumes e acreditar que o amor é possível sempre, acreditar que há alguém capaz de tolerar o nosso mau humor e as nossas pequenas manias, despertar as nossas grandezas e apreciar as nossas pequenezes.

O amor cantado por todos, do ‘All we need is love’ dos Beatles aos ‘Dois Amores’ do Marco Paulo, tanto faz, passando pelo amor dos Pearl Jam, os roqueiros de Seattle responsáveis pela banda sonora da melhor declaração de amor da história da televisão, do mítico Hank para a Karen do Californication. Repito o que já escrevi: quem não estaria disposto a perdoar as loucuras do escritor em troca de um amor daqueles, tamanho e mágico?

Eu cá dispenso todas as mordomias, jantares românticos, prendas elegantes e declarações apaixonadas, e também dispenso todos os semideuses, eloquentes, arrogantes e chatos, gente que nunca fez disparates e nem nunca arrebatará ninguém.

Só não desisto da magia do olhar daquele inventor de jogos que me faz ver estrelas a rebentar num fulgor. É o meu fado!

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