Opinião – Acerca de uma festa de Natal

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Comecemos pelo local, que pela simplicidade e pureza de linhas, é um exemplo singular de arquitetura religiosa contemporânea, e em que sobressai um espetacular e enorme vitral de traço moderno, que mostra o vigor e rigor artístico duma cidade em que artes e culturas especializadas são algumas das suas marcas peculiares, e onde singelos, mas belos azulejos, lembram a antiga pujança industrial de Coimbra.

Com 700 lugares, a Igreja foi pequena para acomodar os que, numa noite de dezembro, assistiram a um espetáculo em que, dos dois coros que atuaram, um é conhecido há muito pela maestria: o Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra.
A Igreja de São José engrandece a Solum, a mais bem estruturada área de Coimbra, que espelha a modernidade de antiquíssimo burgo, berço da primeira dinastia e primeira capital de Portugal, e que aspira ser Capital Europeia de Cultura em 2027, num desafio em que terá por concorrentes municípios menos afamados, mas de inegáveis envergaduras culturais e fortíssimas dinâmicas empresariais, pelo que terá de lutar afincadamente, para vir a ser a cidade que será selecionada.

A atuação dos Antigos Orfeonistas, com jovens da minha geração e de gerações mais e menos idosas, encantou a plateia, como se esperava, face à forma magnificente com que há décadas habituou o mundo a escutá-los. O coro – de laços pretos e alvas camisas debaixo de tradicionais capas negras, sinais de tempos idos, em que os homens predominavam nas universidades, por serem então raras as mulheres que as frequentavam -, proporcionou ao público minutos de encantamento, em que as graves e ainda potentes vozes, projetaram os mais melodiosos acordes.

O outro coro é oriundo da Cava de Viriato. Mais numeroso e de vermelho vestido, impressionou de imediato pela vibrante juventude de todos. No Coro Mozart, a supremacia é das muitas e encantadoras jovens, que contrastaram com as cãs e calvícies dos jovens de espírito do coro que tinha atuado previamente. Apresentados por um maestro que enfatizou a excelência de jovens selecionados em centenas de audições e o reconhecimento deste coro, por gente muito influente em musicais mundiais, fez com que as expetativas dos presentes crescessem imediatamente.

Foi então que a magia aconteceu, vinda do éter e provinda da surpreendente qualidade de gente de tão pouca idade, em que muitos, se não quase todos, serão “teenagers” por muito tempo. A forma como cantaram e criaram uma animação musical e espacial digna de registo, supera a minha cultura cénica e musical, pelo que digo apenas que foi de crescendo em crescendo que o público anónimo, e os orfeonistas presentes, aplaudiram uma mocidade dotada de um incrível musicalidade, e que, pelo profissionalismo evidenciado, fará crer quem descrer do devir do país.

Este evento musical marcou o início do Mercado de Natal de Coimbra, feliz iniciativa conjunta da Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais – liderada por um decano que no futebol e política tem mostrado como Francisco Andrade tem vivido e envelhecido de forma admirável -, e da União de Freguesias de Coimbra dirigida por João Francisco Campos, cuja maior juventude não o impede de se afirmar pela verticalidade das decisões éticas e políticas. Têm em comum, para além de um mesmo partido político e da sua dedicação a Coimbra, terem tido, “per capita”, até um sexto do que tiveram Juntas de Freguesia… da “cor política” desta Câmara de Coimbra.

O Mercado e a festa de Natal da Fundação Inatel foram fruto de quem trouxe magia à cidade, tal como aconteceu pela voz dos cantores de um povo nobre, que nem tem gerações grisalhas, nem juventudes rascas. Um povo que encanta quem o conhece, merece ter quem o sirva! Pelo que a Câmara de Coimbra deverá tratar todas as suas freguesias de modo mais justo e mais igualitário.

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