Opinião – A Primeira Guerra Mundial, a Farmácia e os Farmacêuticos Portugueses

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Um dos aspetos menos divulgados dos fatídicos acontecimentos provocados pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918) relaciona-se com a temática das doenças e dos métodos utilizados para curar os inúmeros feridos e doentes.

Médicos, farmacêuticos e enfermeiros desempenharam um papel não despiciendo no meio desta tragédia que provocou milhões de mortos, feridos, estropiados, gaseados e epidemias de proporções transnacionais. Por entre a carnificina reinante havia quem tentasse salvar o maior número de vidas possível, utilizando novos medicamentos e novas terapias.

Os antibióticos ainda não existiam mas os raios X já eram utilizados, assim como a fisioterapia. Médicos, enfermeiras e farmacêuticos portugueses também estiveram nas frentes de batalha, onde lidaram com a gangrena, o tétano, a febre tifoide, a cólera, a gripe, a tuberculose, as doenças venéreas, doenças infeciosas, doenças tropicais, entre outras.

A mortalidade dos feridos que chegassem aos hospitais no espaço de uma hora era de cerca de 10%, subindo para 75% se o tempo de espera fosse de dez horas. Em virtude de todos estes contextos, agravados pela insalubridade, humidade, alimentação desadequada e higiene deficiente, em setembro de 1918 teve início a célebre epidemia de gripe pneumónica que em outubro já era responsável por 200 000 mortes.

Em todo o mundo foram contaminadas uma em cada cinco pessoas, tendo provocado uma mortalidade de entre 40 a 100 milhões de pessoas. Em Portugal, faleceram 102 750 pessoas, entre as quais o promissor pintor modernista Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918), em Espinho, aos 30 anos de idade. A gripe pneumónica, agravada pelas deficientes condições de vida só foi considerada extinta cerca de um ano e meio depois.

“Durante a Primeira Guerra Mundial vigorava no nosso país a Pharmacopêa Portugueza. Foi editada em 1876 e manteve-se em vigor até à edição da Farmacopeia Portuguesa IV (1935). A farmacopeia de 1876 mostrava-se em 1914 inadequada e insuficiente”. Estas informações e muitas outras constam da exposição, “A Primeira Guerra Mundial, a Farmácia e os Farmacêuticos Portugueses”, em exibição na Escola Secundária Dr. Bernardino Machado, na Figueira da Foz, até março de 2019, depois de ter estado patente ao público, na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, entre abril e julho de 2018.

A exposição é da autoria dos professores da Universidade de Coimbra, Ana Pereira, João Rui Pita e Victoria Bell, estando inserida no 2º Ciclo de Exposições “Temas de Saúde, Farmácia e Sociedade”. A instituição promotora é a Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra e como instituições associadas ou Colaboradoras, o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (através do Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia) e a Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde.

A utilização dos gases tóxicos durante a Primeira Guerra Mundial poderá ser considerada como o início das armas químicas. As máscaras de gás, então utilizadas, fazem parte do nosso imaginário. As consequências dos gases eram imediatas. O Presidente da República Portuguesa, Bernardino Machado, visitou a frente de batalha, na Flandres, em 1917, onde estavam três das suas fi lhas, exercendo, voluntariamente, as funções de enfermeiras. Também se encontrou com um dos fi lhos, oficial voluntário, junto do exército português.

“A Primeira Guerra Mundial veio revelar que a farmácia militar em Portugal apresentava debilidades e não se encontrava preparada para corresponder eficazmente a um conflito daquela dimensão e complexidade”. De grande rigor científico e histórico, esta exposição representa mais um evento de qualidade, no ano em que se assinalam os cem anos do armistício.

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