Opinião – Os homens conhecem-se pelas palavras, os bois pelos cornos

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Andamos nós preocupados com o mundo e com a democracia dos outros e, por cá, a paródia é permanente.

Numa semana, saltámos da Maria Sem Begonha para o José Silvano Omnipresente, sem período de nojo. E no entremeio ainda pasmámos com o otelismo da Frágil Margarida Martins.

O PSD que, nos últimos tempos, não pára de cortejar o comparsa socialista, à espera da piscadela de olhos que os há-de emparelhar, protagonizou o embaraço da semana. Desta vez, soubemos que o secretário-geral dos laranjas marcava presença no Parlamento ao mesmo tempo que andava por aí ao serviço do partido. É claro que a lei de financiamento político-partidário merece uma discussão pública alargada, em vez dos habituais arranjinhos feitos em surdina, pois sabemos todos que os partidos usam os órgãos institucionais (da Assembleia da República às Câmaras Municipais) para ‘empregar’ uns quantos correligionários e confundem as funções de Estado dos seus eleitos com as tarefas partidárias. Ora, a discussão é urgente e exige coragem, mas a sua falta não justifica que o secretário-geral do partido mais votado nas últimas legislativas se esqueça da dignidade da função de deputado, aldrabando o sistema de marcação de presenças e mentindo à nação.

Caro José Silvano, como diz o povo, “mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo” e, depois de umas desculpas esfarrapadas, depressa soubemos que afinal todas as palavras-passe tinham sido mudadas em Julho, o que significa que, pelo menos desde essa data, algum vassalo tem assinalado a sua presença (quando está no parlamento, quando passa por lá de fugida só para ver como param as modas e quando nem sequer lá põe os pés).

E o Rio, candidato a Primeiro-ministro (ou será a Vice?), ignorou a “questiúncula”, que, nas suas palavras “não belisca o partido nem fragiliza o deputado”. Lamento, meu caro Rui Rio, mas o povo também diz que “os homens conhecem-se pelas palavras, os bois pelos cornos” e se as palavras não têm a validade dos iogurtes, o banho de ética há muito anunciado vai ficando fora de prazo, em águas turvas e paradas, sujeitas a infestações variadas (já por lá pululavam uns mosquitos de Berkeley particularmente incómodos).

E o pior é que, à semelhança das façanhas da Sem Begonha da última semana, as faltas do Silvano não mereceram o apedrejamento dos pares. Com o ror de telhados de vidro que por aí se vêem, valeu-lhes com certeza a memória bíblica, “Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra”, e foi vê-los a assobiar para o lado, alheios a pecadilhos comuns.

Os assobios distraídos já se tinham ouvido em Arroios quando a Presidente da Junta mandou para o Brasil todos os brasileiros apoiantes de Bolsonaro. Ao que parece, a Guidinha (habituada a barrar a entrada de cidadãos menos desejados na discoteca onde trabalhou nos anos 80 ) não gosta do Presidente brasuca e nem dos seus fãs. Não gosta deles, bem se vê, e bem conversado, a Presidenta ainda os manda para o Campo Pequeno, como queria o outro. E os arautos do politicamente correcto, gritaram e esbracejaram!? Não! E o Partido Socialista, retirou-lhe a confiança política!? Também não! E o PSD, o que teria feito no seu lugar? O mesmo que fez em Loures ao André Ventura, com certeza. Nada! Porque, afinal, o namorico entre Costa e Rio é do agrado das famílias, que partilham há muito quintas e quintais.

Acautelem-se, pois, os concubinos porque desta vez ninguém apedrejará os adúlteros.

E será a vitória do politicamente correcto!

 

2 Comments

  1. Rui Santos says:

    Era sabido que, depois de Passos Coelho, o PSD teria de atravessar o deserto e que nos próximos anos (diria 10 anos) não chegaria ao poder. Mas Rio e as suas escolhas ainda reforçam esse desígnio. Parece que cada tiro (secretário-geral), cada melro.
    O que de pior se retira destes episódios é um descrédito de um povo pobre, aos seus políticos, capazes de coisas destas para receberem os míseros 69 euros diários de presença no parlamento.
    E os coitados com reformas de 290 euros.
    Parabéns pelo artigo, Filomena.

  2. Poortugues says:

    Enquanto a maioria dos portugueses olhar para os partidos como clubes de futebol, defendendo o seu até à morte e insultando os outros de tudo e mais alguma coisa, o país não muda. Quando chegarem as eleições lá estarão mais uma data de Silvanos a ser eleitos por distritos que nem conhecem e a ter lugar só para receber tudo o que conseguirem.
    Se os portugueses chegassem às eleições e se preocupassem em saber quem são as pessoas que realmente estão a ajudar a eleger as coisas poderiam ser diferentes.

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