Opinião: Os jovens e a saúde mental num mundo em mudança

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Quando, na década de 90, entrava o primeiro walkman na escola, o estatuto social do seu utilizador ganhava um novo patamar e, era inegável, que se tratava do aluno mais cool da escola. Esse estatuto foi vingando até que, passados alguns anos, entrava na mesma escola, um discman!
Entretanto veio o MP, o Ipod e as suas versões, e tantos outros aparelhos e inovações que supostamente vinham melhorar a nossa vida. Os anos foram passando e as cartas, os postais, e outros que tais, passaram a habitar aquele espacinho da memória ao qual recorremos quando, com muita admiração perguntamos aos nossos amigos “Ainda te lembras??”
Decidi, no Dia Internacional da Saúde Mental, e atendendo ao tema “Os jovens e a saúde mental num mundo em mudança”, refletir sobre o impacto que as novas tecnologias tem estado a ter nas nossas vidas.
Hoje, todos nós, de uma forma ou de outra, estamos ligados. Os jovens, que já nasceram na era do Euro, da Playstation, do Iphone, conhecerão eles outra realidade?
Ainda se lembrarão, certamente, de sair da escola à sexta-feira e combinar o (re)encontro exatamente no mesmo sítio, na segunda-feira seguinte. A escola, como outros lugares, era o espaço social, onde se faziam amizades, se contavam histórias, se partilhavam as novidades. Não havia fotografias para retratar o que tinha acontecido no almoço de família de domingo, recorríamos a descrições (mais ou menos) exaustivas para descrever o que tínhamos no prato e a piada que se fazia com isso era feita mesmo ali e, ao ser reproduzida, já não tinha o mesmo impacto.
Hoje é diferente, somos diferentes, estamos diferentes. Em 20 anos passamos por tantas mudanças sociais e políticas. Começamos a ver os efeitos tas alterações climatéricas que fomos causando ao longo dos anos, abusando da fragilidade da natureza, sentimos no corpo a falta de atenção que lhe fomos dando.
Será que os jovens estão atentos às mudanças que estão a viver? Será que essas mudanças serão promotoras de saúde mental?
Vivemos num mundo onde se acredita que a correr o tempo passa mais depressa, mesmo sabendo que o tempo é o bem democrático que existe: o dia terá sempre 24 horas, independentemente do lugar onde estamos, do ritmo a que vivemos, das tarefas que vamos acumulando.
Hoje, Dia Internacional da Saúde Mental, vamos pegar na velha máxima “os jovens são o nosso futuro” e vamos, de forma muito consciente, pedir-lhes para que olhem para o nosso planeta, para a nossa sociedade, para o “outro” e para “si mesmo” de forma compassiva, para que, daqui a outros 20 anos a Saúde Mental não seja uma preocupação, mas sim um bem! Um bem valioso e adquirido.
Vamos cuidar de nós e dos nossos, vamos cuidar das relações que estabelecemos com os outros, vamos estar mais presentes e mais próximos. Vamos criar uma sociedade mais justa, vamos gerar coesão social.
A Saúde Mental não pode ser aquele chavão que se usa quando se quer justificar um acontecimento marcante. Não podemos continuar a falar dela como se de uma miragem se tratasse. O acesso aos cuidados de saúde não pode continuar a ser remediativo, deverá passar a preventivo! As escolas devem começar a capacitar as suas crianças e jovens para uma cidadania mais participativa e proativa, não daquela que se lê nos livros mas sim aquela que se ensina transversalmente em todas as disciplinas, dentro e fora da sala de aula.
Vamos pedir aos jovens para que, neste mundo em mudança, não se esqueçam de estar ligados entre si, de forma mais saudável, mais coerente e consistente, para que as novas tecnologias (por exemplo) sejam sempre uma mais valia, e não um fator de isolamento, uma ferramenta de ilusão, um escape da realidade.
Vamos todos construir uma sociedade mais atenta, mais feliz e mais saudável e que este dia seja sempre lembrado como o dia em que se celebra a Saúde Mental e tudo aquilo que ela representa, em termos físicos e emocionais, e que seja um percurso interdisciplinar, que envolva não só a psicologia mas todas as áreas da saúde que promovem o nosso bem estar e melhoram a nossa qualidade de vida, de forma permanente e cada vez mais acessível a todos.

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