Opinião: O erro de Damásio

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Sigo com deslumbramento a produção e a divulgação científicas de António Damásio. Em “A Estranha Ordem das Coisas” (Temas e Debates, 2017 ) traz à luz conceitos e teorias sobre a humanidade e o seu percurso, compreendido através de processos homeostáticos, biológicos e psicológicos, num contexto alargado de sociedade e cultura onde se integram os organismos vivos. Basicamente, não é a inteligência que distingue os seres. Dos micro-organismos aos multicelulares, todos possuem inteligência, o que lhes permite recolher informações e adaptarem-se a um novo ciclo de existência. Ou isso ou a morte. Os processos de aprendizagem são sempre mais eficazes e eficientes quando os organismos se deparam com situações de conflito – consigo mesmos e relativamente ao meio em que se inserem.

É tão desconcertante… por um lado, estas ideias surgem-nos como “evidentes” (“ideias simples”, como o próprio autor diz) – como se fosse algo que já soubéssemos. Por outro, é maravilhosamente deslumbrante.

Em “O erro de Descartes” (primeira edição, 1994 ), Damásio alertava para o perigo da ausência de emoções na construção da racionalidade. Algo que só os seres humanos (ainda?) possuem: inteligência, racionalidade, consciência. É por isso que em “A Estranha Ordem das Coisas” Damásio defende as (designadas) humanidades como áreas de conhecimento fundamentais na formação dos indivíduos: segundo o neurocientista os sentimentos são criadores de consciência e motores na produção de cultura, ciência, conhecimento. António Damásio dá o exemplo da arte como elemento fulcral de superação e de compreensão da própria vida.

Intelecto, racionalidade, sentimentos. É Música. O “universo” da Música e da Musicologia há muito que têm vindo a desbravar os caminhos das emoções e dos sentimentos em estreita ligação com o intelecto e a racionalidade, a técnica e a(s) ciência(s) necessária(s) para estruturar o “universo” da música ocidental. Foi com este intuito que Pitágoras e os seus discípulos instituíram o estudo da Música na sua escola (séc. V a.C.) e que os monges do cristianismo instituíram o quadrivium – ciclo de estudos onde se estudavam Música, Aritmética, Astronomia e Geometria –, depois de um ciclo de estudos elementar: o trivium (trivial, básico), onde se estudavam a Lógica, a Retórica e a Gramática.

Ao longo dos séculos, a música erudita do ocidente foi desenvolvendo o seu universo sónico – dimensão, variedade tímbrica e orquestral, estrutural, etc. – ao mesmo tempo que aumentava as suas potencialidades expressivas e comunicacionais intangíveis e, assim, a sua capacidade estimuladora de sensações, emoções, sentimentos, elaborações imagéticas e ideias. Tudo isto num processo gradual, ao longo de 2500 anos (desde Pitágoras, pelo menos). Os conhecimentos técnicos e científicos relacionados com a “arte-Música” promoveram o enriquecimento do seu universo, cada vez mais vasto, complexo e expressivo. Se por um lado as potencialidades (harmónicas, organológicas, expressivas, etc.) foram aumentando, também a necessidade dos criadores/compositores dominarem esses conhecimentos (técnicos e científicos). Não haverá outro comportamento expressivo em que tal se exija como pedra basilar para e no processo de criação.

Na sua ânsia de conhecimento António Damásio diz ter procurado respostas para as suas inquietações interiores na engenharia, no cinema, na filosofia, na literatura, tendo optado pelas neurociências. Diz que Shakespeare é o maior neurocientista e compreende-se: no perfil de cada personagem e nos comportamentos que se definem por si só dentro do desenvolvimento da acção dramática.

E se Damásio tivesse estudado Música? A Música erudita resulta de processos matemáticos e físicos, de engenharia e arquitectura e de narrativas estimuladoras e/ou expositivas de estádios emocionais e sentimentais. Muito para além da língua, a musicalidade estimula e influencia o ouvinte, sem imagens, sem palavras, para lá da literatura ou da poesia; ciência hermética ao serviço de uma arte mais ou menos universal. E recorre à literatura das canções à ópera.

O erro de Damásio foi ainda não ter estudado música. O que nos traria de novo se o fizesse? Adoraria saber…

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