Opinião: O centro

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Há já algum tempo que um conjunto de acontecimentos, um pouco por todo o lado, faz recear pelo futuro das democracias tal como, pelo menos no Ocidente, as conhecemos. O mundo parece um lugar cada vez mais esquisito e perigoso.

A emergência de figuras políticas com discursos sinistros é coisa que já não conhecíamos há tempo ou, se elas existiam, eram personagens relativamente marginais nas configurações políticas dos respectivos países. Entre nós, o fenómeno ainda não tem expressão significativa, mas isso não nos fornece uma garantia vitalícia sobre a compostura da nossa democracia.

O ponto nuclear, creio eu, desta mudança que se vai observando é o desprezo a que um número crescente de eleitores foi votando o centro político. O espaço dos acordos essenciais, da discussão razoável e do confronto civilizado. Sem captar as virtudes desse espaço central de entendimento, ele transforma-se, na visão de muitos, numa inexistência doutrinária, habitado apenas por interesses, troca de favores e corrupção. É bem certo que, desgraçadamente, muitos agentes políticos deram contributos relevantíssimos para que essa visão dissolvente se instalasse.

É claro que é cómodo subscrever posições radicais. É fácil aderir a discursos simplistas. Eles dispensam até, em geral, grande conhecimento dos assuntos. Nalguns casos dispensam até grande alfabetização. O preço que podemos vir a pagar pela vitória desses é coisa que não consigo estimar, mas está a ficar claro, julgo eu, que ao fim de umas décadas, os povos esquecem tudo o que aconteceu e tendem a repetir asneiras.

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