Opinião: Fénix

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1. Num verso que, visto à luz dos acontecimentos de sábado à noite, parece humor negro, Fernando Pessoa, através de Alberto Caeiro, uma das suas personas literárias, assegurava que “outras vezes oiço passar o vento, e acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido”. Anos mais tarde, um outro poeta, Mário Cesariny, parecia evocar um estado de total transtorno quando escrevia que “sorvo o ar que te atravessou a cintura/tanto/tão perto/tão real/que o meu corpo se transfigura/e toca o seu próprio elemento/num corpo que já não é seu/num rio que desapareceu/onde um braço teu/me procura”.

É a cidade e o concelho que se vêem a braços com uma catástrofe de proporções que, suponho, eram impensáveis, mesmo poucas horas antes de ela suceder. Não vale a pena dizer mais sobre o que aconteceu. Outros, mais qualificados e conhecedores, fizeram-no e fá-lo-ão. Só resta formular votos para que este território e esta comunidade se consigam reconstruir. Se consigam reerguer, qual fénix renascida das cinzas. A bem de todos e de cada um.

2. Manuel Teixeira Gomes morria, há precisamente 77 anos, na Argélia. Artista e político, foi dos últimos Presidentes da 1ª República e porventura o menos conhecido deles. Algarvio de nascença, ficou especialmente conhecido, enquanto escritor, pelo texto “Gente singular”, um breve conto “ferroviário” que foi objecto de adaptação teatral. A sua saída da cena política, algo enfadado com a intriga de fim de regime, e desejando regressar à vida literária, tem em si mesmo a simbólica do estertor da República.

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