Opinião: Brasil

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Chico Buarque subiu à tribuna e disse “eu tenho a esperança de que nas periferias, que é afinal onde está o povo que mais sofre com a miséria e a violência, onde votaram por mais violência e mais miséria – votaram contra si mesmos – talvez na última hora virem o voto. Não queremos mais mentira, não queremos mais força bruta. Queremos paz. Queremos alegria. Queremos Fernando (Haddad) e Manuela (D’ Ávila). Queremos democracia”. E mais não disse porque a voz embargou-se-lhe e, nesse quase-pranto, selou o mais curto e comovente dos discursos de campanha no Brasil.

Nestes dias de bestialidade política, Bolsonaro é o herói da barbárie mundial. Os mais despudorados desenrolam admirações; os também-oportunistas (como a portuguesa Cristas) assobiam para o ar, esperançosos que lhes calhe por sorte uma febra do festim de sangue que Bolsonaro anuncia aos quatro ventos.

Quando o assunto é caminhar na História, o povo é sempre indispensável – umas vezes para avançar, outras vezes para recuar. Não se pense, porém, que neste juízo de valor que acabo de fazer pretenda dar ares de paternalismo. Nem pensar! Eu sou dos que acha que o povo (nós todos) deve votar em quem lhe der na vontade. Mas haja quem assinale que votar mal é sempre votar no seu próprio mal. Mesmo quando se vota para recusar o mal, elegendo a seguir um mal maior (como o trabalhador que, entre nós, votou – bem – contra a política laboral de Sócrates elegendo – mal – a continuidade dessa política com Passos Coelho). É disso que fala Chico Buarque, o que cantou Pedros Penseiros, Guris, Genis, Joanas-de-tal e tantos mais sofredores de uma miséria que, afinal, eles próprios promovem votando em Bolsonaro. É por eles que chora o compositor de “A Banda” – pelos protagonistas dos “Cidade Alerta”, do programa do Ratinho, dos reality show onde se vende a dignidade inteira por 15 minutos de fama e uma vida de atropelo.

E se é certo que “o voto é a arma do povo”, não é menos certo o perigo de permitir que os instrutores da carreira de tiro sejam as Globo News e as suas verdades empacotadas, os Edires-Macedos e as suas preces alienadas, os enredos de novela em que os ricos se vitimizam em desesperos de amor e disputas de herança, a Justiça que levanta a venda e limpa do prato da balança os sem-casa, os sem-terra, os sem-infância, os sem-vida.

Nestes dias é como se jogássemos no nosso chão o chão daquela terra, às vezes sem perceber que os bolsonaros vivem entre nós, alimentados a austeridade, controlo do défice, desregulação dos horários de trabalho, precariedade, escravidão até. Por isso nos emocionamos, pelejamos nas redes sociais, disparamos o argumento que é pela paz porque é contra a miséria, é pela democracia porque é contra a manipulação, é pelo progresso porque é contra a ignorância, num mundo em que não se pode ser pela Humanidade sem ser contra a exploração do homem pelo homem.

Normalidade democrática até pode ser o escravo votar no seu senhor. Mas Democracia é que não é.

Manuel Rocha escreve ao sábado, quinzenalmente

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